Desejar uma pedra, quando se tem estrelas



Cheguei atrasada à festa, como acontece sempre quando se fala de séries. Quando comecei a ver Mad Men já faltavam apenas três episódios para o derradeiro fim. Ainda assim, dia após dia, fui vendo os episódios com o meu entusiasmo e fascínio de principiante. Quase um ano depois de ter acabado de ver a série, há um episódio que a minha mente não se cansa de relembrar. 

Joan está a ter um dia mau e Don convida-a para ir com ele fazer um teste drive à Jaguar. Joan apaixonado por um carro vermelho. O carro mais bonito alguma vez feito, como referiu o vendedor. “Eu quero um” – diz logo de seguida Joan, deixando a sua voz suave mostrar o seu desejo. 

Na cena seguinte vemos o carro à porta de um hotel, e o Don e a Joan no bar. Ele diz que, por alguma razão, o carro não significa nada para ele. Ao que a Joan responde, sem hesitar: “É porque estás feliz. Não precisas dele.” 

Incansáveis vezes, senti-me como o Don. A vaguear por shoppings repletos de mensagens tentadoras ou a observar um tecido delicado numa pequena loja austríaca, a minha mente fugia sempre para algo melhor, um estado de espírito de pura felicidade que fazia com que a mais bonita das peças parecesse desinteressante. 

Já Thomas More escrevia no livro Utopia, "Os utopianos admiram-se dos seres que se deleitam com a luz incerta e duvidosa de uma pedra ou de uma pérola, quando têm os astros e o sol para encher os olhos."