12 simples histórias

Sempre ouvi dizer que a História é importante. Ela tem o poder de nos ajudar a compreender o presente e a prever o futuro. Talvez por isso eu tenha escolhido dezembro para escrever sobre o que já passou, para relembrar os doze meses que ficaram para trás. Sem nostalgia, lamentações ou resoluções. Apenas agradecimentos. Pequenas cartas de amor às coisas simples.
Um ano dividido em doze momentos.


JANEIRO

Janeiro chegou em paz. O cansaço esgotante do final do ano deu lugar a dias mais calmos e a clareza da mente. Mudanças, inspirações e decisões iriam chegar. 

FEVEREIRO

A tarde foi atarefada mas passou-se de forma calma por entre flores, lenha para o forno e conversas pausadas. O calor do sol e do forno criou o ambiente perfeito para criar os biscoitos dourados que me lembro de comer desde sempre. As minhas calças pretas ficaram repletas de farinha, os dedos de massa e a mesa de açúcar mas no final do dia essas foram as melhores lembranças. O mês acabou tão bem como começou.

MARÇO

Em Fevereiro planeou-se, em Março concretizou-se. No início deste mês entrei num avião rumo a Milão, o início de uma viagem por cinco países em oito dias. A maior parte dos dias foram passados a andar de comboio pela Áustria, onde me apaixonei pelas montanhas nevadas, pelo azul névoa do céu e pela calma das cidades. O frio foi sempre uma constante mas também o foi a aventura. Houve gargalhadas contagiantes, comidas deliciosas e sítios de cortar a respiração. Foram apenas oito dias mas pareceram oito meses. No momento de voltar a nostalgia não me largou. Eu estava cheia de histórias para contar mas ainda não estava pronta para regressar.







ABRIL

Abril foi o primeiro mês. Os primeiros trinta dias dedicados a fazer aquilo que mais gosto. Deixei a minha velha rotina, mudei de hábitos. Entretanto eu li, ouvi música e explorei o meu lado mais criativo. Acho que nunca trabalhei tanto. Houve dias em que acordei às cinco da manhã para ir tirar fotografias, escrever poesia, fazer entrevistas e reportagens. Passei noites a ler Patti Smith, a ouvir discos e a folhear revistas. Entretato a primavera chegava.


MAIO

A praia ao amanhecer. A rota do chá onde descansei depois de um dia de trabalho. As casas históricas onde outrora a nobreza passeou. O atelier de desenho onde dormi. As paisagens que passam a correr ao meu lado cada vez que regresso a casa. 


JUNHO

Acordar em noite profunda. Quatro, cinco da manhã. O junho ainda era frio e o sol ainda tardava. Caminhar sonolenta até um taxi. Ver os candeeiros da rua a apagar através da janela embaciada. Ruas adormecidas, estradas desertas, semáforos vermelhos. Vamos à praia ver o nascer do sol. Temos um balão de ar quente com vontade de voar. A areia era fria e os pés estreavam-se no mar. Só se avistavam pescadores solitários e gaivotas barulhentas. Ontem toda a gente tinha festejado. Martelos de borracha, algodão doce, música de baile e gritos de diversão. Hoje só restou a calma, uma praia vazia e um balão colorida a perder-se de vista.







JULHO

O cheiro das tintas, do azul no papel, das máquinas que não param. As folhas soltas, os testes de cor, os erros que se escondem. Re-ler e rever. Re-escrever e compor. Assim foi este mês. Julho quente, os pés em água, a cabeça em roda. Noites longas, dias sem fim. Andar para trás e para a frente. Ir ao norte, correr para sul. E no fim a paz, em forma de papel.


AGOSTO

Agosto era o pior mês. Pelo menos costumava ser. Os dias eram cansativos, aborrecidos. Calor demais, actividades a menos. As aulas ainda demoravam a começar e o entusiasmo das férias já tinha sido substituído pela monotonia. Mas o que era, nem sempre será. Este ano não houve um dia por preencher. Cada hora foi aproveitada plenamente. Ler à sombra, ouvir música no comboio, escrever postais e nadar no rio. Sempre fui uma rapariga de inverno e Setembro sempre será o meu maior amor, mas, este ano, Agosto roubou a minha atenção e um pouco do meu coração.





SETEMBRO

Não gosto de escrever sobre música. Descrever sonoridades, analisar acordes e romantizar letras não é para mim. O que eu gosto de fazer é ouvir. Fechar os olhos, adormecer a minha mente e deixar-me envolver na beleza de uma música. Beach House, Deru, Devendra Banhart, Rodrigo Amarante.


OUTUBRO

Corpo são, mente sã. Encontrei no movimento, no exercício do corpo, a paz de espírito. Já sentia falta desse cansaço que traz calma, dos músculos que doem enquanto a cabeça descança. Na sala não há espelhos, nem espaço para vaidades. A imagem é um  pormenor quando temos consciência do nosso corpo.

NOVEMBRO

Era sábado e o frio de fim de tarde já se fazia sentir. Caminhei até à minha livraria preferida para aprender sobre Haiku, um tipo de poesia japonesa onde os sentimentos são descritos através da natureza e o tempo é marcado em função das cerejeiras em flor, da água que pinga do tecto ou do cantar de um pássaro. 

DEZEMBRO

O mês mais belo. Narizes vermelhos, pele de galinha. Um ano a terminar e aqui estou eu, a admirar o que já passou, a recordar o que ficou. 

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