Porque precisamos de uma revolução na moda?




Quando penso em consumo desenfreado há uma imagem que não me sai da cabeça. Uma multidão de pessoas em histeria a gritarem e a empurrarem-se umas às outras enquanto lutam por aquilo que desejam. O cenário parecia similar ao de uma catástrofe mas o motivo para tamanho alarido era simplesmente a inauguração da colecção da Balmain para a H&m. 

Estas colecções surgiram como uma forma de democratizar a moda, dando às massas a possibilidade de comprarem uma peça de designer por um preço inferior. Infelizmente, o preço parecia ser a única coisa que importava. Ninguém se preocupou em ver a colecção, apreciar aquilo que o designer tinha criado ou pensar na razão porque gostariam de ter uma peça da Balmain no seu armário. O facto das Kardashians usarem roupa da da marca foi motivo suficiente para a colecção esgotar nos primeiros dias.

Este pequeno acontecimento consegue retratar de forma clara a razão porque precisamos de uma revolução na moda. O preço e a influência das celebridades parece ser hoje mais valorizado do que o trabalho do designer ou a qualidade do material. Antes existiam colecções de primavera/verão e de outono/inverno e as compras organizavam-se em função das estações. Havia costureiras e alfaiates, os buracos das meias eram remendados e havia uma maior preocupação com a qualidade e a durabilidade de uma peça.
Agora a moda é inconstante, imprevisível e incansável. Semanalmente chegam novas colecções às lojas e novas lojas às ruas. Os preços nunca foram tão baixos e a qualidade é a menor das preocupações. Hoje ninguém se importa se uma camisola da Primark tem a costura torta ou o colarinho descosido porque o preço justifica as imperfeições. Vivemos na sociedade dos restos, das peças com defeito. A diferença é que não estamos a comprar em lojas de segunda mão, nem directamente às fábricas. Estamos propositadamente a pagar por productos de baixa qualidade e há pessoas a sofrer e a morrer por isso. Estamos assim tão desesperados em comprar algo novo que a única coisa que interessa é o preço marcado na etiqueta? Como podemos exigir qualidade e transparência às marcas de fast fashion se eles sabem que o valor mais baixo vence sempre?


O que aconteceria se os consumidores recuperassem a sua dignidade 
e exigissem às lojas roupas melhores?

O ritmo teria de abrandar, 
o preço subiria e não haveria novidades semanalmente.
Mas seria isso assim tão mau?


As idas ao shopping nos fins de semana e as épocas dos saldos deixariam de ser eventos em si mesmo. Talvez as pessoas começassem novamente a ir aos museus e a passear nos jardins. O consumo voltaria a ser feito por necessidade e os preços mais elevados iriam obrigar-nos a comprar apenas aquilo que precisássemos e gostássemos. 

Infelizmente isto ainda é uma espécie de utopia. Passados quatro anos da morte de mais de mil pessoas nas fábricas em Bangladesh, a indústria da moda continua a produzir roupa a uma velocidade estonteante, desprezando os direitos humanos e o meio ambiente. A nossa responsabilidade como consumidores e seres humanos é certificarmo-nos que aquilo que vestimos não custou a vida de ninguém. É preciso sermos curiosos e questionarmo-nos sobre quem fez as nossas roupas e em que condições é que vivem. Só ao mostrarmos o nosso interesse em conhecer as pessoas por detrás das marcas é que vamos conseguir melhorar as condições das cadeia de produção, a qualidade dos materiais e o bem estar humano e ambiental.

Amanhã começa a Fashion Revolution week, uma semana onde somos convidados a questionar a indústria da moda e o processo de produção daquilo que vestimos.  Eu vou me juntar à causa e publicar diversos posts sobre a importância do consumo ético, da moda sustentável e do minimalismo ao longo desta semana.  É altura da indústria da moda voltar a destacar-se pela originalidade, qualidade e criatividade e nós somos os responsáveis por fazer isso acontecer.

5 comentários:

  1. Assim que li ,lembrei da correria das pessoas no lançamento do celular da apple! Inês precisamos de mais pessoas escrevendo bem e falando sobre coisas que ninguém escreve,parabéns! Também gosto muito desses assuntos,a netflix esta com muitos documentários nesse estilo.Adoro ler suas reflexões,sucesso!

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    1. É curioso teres comentado isso porque também ia falar da loucura em torno dos iphones mas como este post é mais focado na moda decidi deixar isso para outra altura. Obrigada pelos elogios! :)

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  2. Obrigada pela reflexão Inês! Subscrevo!!! E vou-me juntar a esta causa.

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  3. Concordo plenamente consigo. Já fui uma pessoa super consumista e houve um dia que olhei para o armário e disse "Basta"!!! Já destralhei muito o armário e desta última vez foi sem dó nem piedade e fui meter 9 sacos (daqueles de 30lt) de roupa e sapatos ao contentor da roupa. Fiquei só com aquilo com que me sinto bem, gosto e realmente uso. E agora sempre que preciso de fazer compras sou muito mais salectiva e até posso gastar mais dinheiro mas sei que estou a comprar roupa com qualidade e isso sim é muito importante. Deixei-me de modas e modinhas e de consumismo desenfreado. Custou a perder esse vicio porque é uma vicio mas finalmente consegui e agora abro a porta do armário e amo de paixão o meu estilo minimalista :-D

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    1. Comigo aconteceu exactamente o mesmo! Também tinha o armário cheio de coisas que nunca pareciam combinar entre si e de que deixava de gostar num instante. Agora adoro todas as peças de roupa do meu armário e sei sempre o que vestir :D
      É incrível como demorámos tanto tempo a perceber que a qualidade é muito mais importante do que a quantidade :)

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