Diário de Fevereiro e Março

Podia começar este texto a falar sobre as particularidades do mês de Fevereiro, um mês com poucos dias que nos faz lembrar que o tempo passa depressa, mas, para o melhor ou para o pior, estes 29 dias estiveram repletos de decisões, mudanças e planos. Tarefas e prazeres que me distanciaram tanto da realidade que, quando me apercebi, Fevereiro já era Março.


V I A G E M

Em Fevereiro planeou-se, em Março concretizou-se. No início deste mês entrei num avião rumo a Milão, o início de uma viagem por cinco países em oito dias. A maior parte dos dias foram passados a andar de comboio pela Áustria, onde me apaixonei pelas montanhas nevadas, pelo azul névoa do céu e pela calma das cidades. O frio foi sempre uma constante mas também o foi a aventura. Houve gargalhadas contagiantes, comidas deliciosas e sítios de cortar a respiração. Foram apenas oito dias mas pareceram oito meses. No momento de voltar a nostalgia não me largou. Eu estava cheia de histórias para contar mas ainda não estava pronta para regressar.


G I R L S

Raramente gosto logo de uma série ou de um filme. Primeiro estranho as personagens, a linguagem, os cenários, só depois é que começo a familiarizar-me com os episódios. A série Girls não foi excepção. Apesar de hoje ser uma das minhas preferidas, nem sempre foi assim. Depois de ver e rever a série mais de que uma vez comecei a identificar-me cada vez mais com as situações retratadas. com o desejo das personagens de seguirem os seus sonhos e com a dificuldade em ser jovem nos dias de hoje. Fevereiro marcou o início de uma nova temporada de Girls e eu já revi os episódios que saíram duas vezes. Não é por acaso que a repetição é o meu recurso estilístico preferido.


L I V R O S 

Eu sou uma apologista de que a realidade é mais interessante do que a ficção. Talvez porque a veracidade de uma história é o que a torna fascinante. Quando entro numa biblioteca ou livraria, a secção para onde me dirijo é sempre a das biografias. Há quem ache que ler sobre a vida de outra pessoa não é mais do que espreitar o seu diário ou ler a opinião de alguém sobre ela. Para mim, uma auto-biografia é uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre algum que me fascina. Os últimos dois livros que li encaixam na perfeição nesta categoria. Comecei com o livro What I Talk About When I Talk About Running . Um livro de memórias escrito pelo Haruki Murakami sobre o seu hábito de correr e escrever. Cada página do livro despertou-me desejos de movimento. A persistência do escritor e a sua força de vontade em concretizar os seus objectivos são um exemplo de persistência que parece rara nos dias de hoje. O mesmo se passou com o livro M Train da Patti Smith, a minha leitura de Março. Talvez tenha sido por ler este livro enquanto viajava de mochila às costas pela Europa e fazia pequenas sestas no comboio, mas as memórias da escritora fizeram-me lembrar um sonho, como se estivesse dentro da mente dela e os pensamentos vagueassem entre o presente, o passado e o futuro. Uma história sem tempo, nem lugar, que me deixou com vontade de passar os dias em cafés a escrever poesia em guardanapos.


R E V I S T A S

Estávamos em meados de Fevereiro quando recebi em minha casa a Vestoj, uma revista sobre moda escrita por professores universitários e investigadores da área sobre as relações das pessoas com a moda e a relação da moda com a nossa identidade.  Cor de céu azul e com um formato idêntico ao de um livro, eu finalmente estava a segurar a revista porque ansiei durante tanto tempo. Na capa havia uma pequena nota escrita à mão, presa por um pequeno clipe preto, onde se lia "Dear Inês, We sincerely hope you enjoy the reading! Love, Vestoj". A revista tinha chegado a mim há menos de dez minutos e já me estava a surpreender. Neste momento vou a meio da leitura e estou sem pressa de a terminar. O tema da edição que comprei é slowness e quero fazer juz aos seus artigos. Além disso, esta é possivelmente a revista mais inteligente e interessante que já li sobre moda. Lá, a publicidade é proibida e os leitores são convidados a serem curiosos e a verem a moda para além das lentes do consumo. 


B I S C O I T O S

Sábado passei a tarde ao sol com uma tshirt vestida enquanto ajudava a minha família a fazer biscoitos para a Páscoa. A tarde foi atarefada mas passou-se de forma calma por entre flores, lenha para o forno e conversas pausadas. O calor do sol e do forno criou o ambiente perfeito para criar os biscoitos dourados que me lembro de comer desde sempre. As minhas calças pretas ficaram repletas de farinha, os dedos de massa e a mesa de açúcar mas no final do dia essas foram as melhores lembranças. O mês acabou tão bem como começou.