Tempestade

A
chuva
lá fora
não 
me cai
bem


Acordo e adormeço incontáveis vezes naqueles minutos que antecedem a hora de levantar. Ouço a chuva a bater na janela e, num acto de infantil cobardia, escondo-me um pouco mais debaixo dos lençóis. Quando o relógio assinala o momento decisivo para retirar o meu corpo da cama, eu esfrego os olhos, ainda ensonados, e encaminho-me vagarosamente para a janela. Está um dia perfeito para ficar em casa. Chove sem parar, o vento penteia as árvores e a claridade não promete aparecer. O céu está de um cinzento suave que nos diz que já não é noite mas que o dia irá ser escuro. 
Com um chávena de chá e uma manta a cobrir os ombros, aproveito os últimos minutos antes de enfrentar a tempestade. De um lado estou eu, o vapor do chá de maça e canela, o conforto do lar. Suspiro enquanto desenho símbolos que nada significam no vidro ligeiramente embaciado. Oh, o frio da rua passou para as pontas dos meus dedos. Agora vai ser impossível arranjar coragem para sair.

Isto está sempre a acontecer. Da segurança das quatro paredes que me rodeiam eu glorifico as tempestades como se fossem uma deusa. Aprecio a elegância dos relâmpagos no céu e o suave som da chuva no chão, mas, no momento de sair, o conforto fala mais alto, tão alto que a coragem não é mais do que um sussurro. Uma simples sugestão de algo que não queremos concretizar.

Ainda num estado de preguiça disfarçada, penso em tudo o que o conforto me impediu de fazer. 

As coisas que
não
arrumei
Os sítios onde
não
fui


Aquilo que não mudei. Ainda assim, aqui estou eu, absolutamente encantada com o tempo lá fora mas com demasiado receio do que pode correr mal quando o enfrentar. O cabelo molhado, o guarda-chuva desfeito, o cachecol a voar do meu pescoço. Nada bom pode acontecer lá fora, felizmente ainda tenho mais uns minutos antes de sair. Arrumo as coisas que estavam abandonadas em cima da minha mesa, lavo a chávena já sem chá, pego no mapa da minha próxima cidade e mudo a forma como tinha o meu cabelo. 

Despeço-me
do
conforto

A verdadeira
tempestade

Para a minha
coragem