A ler - Ornamento e Crime de Adolf Loos

"Os sapatos estão cobertos de ornamentos. Decorados por todas as partes com padrões em forma de ziguezague por cuja execução o sapateiro não foi pago. Vou ao sapateiro e digo-lhe: "O senhor quer 30 coroas por um par de botas, mas pago-lhe quarenta." Ao dizer isto, o sapateiro sente-se no paraíso. Agradecer-me-á com trabalho e materiais cuja qualidade fica bem acima do preço extra que lhe paguei. Sente-se extasiado. A sorte raramente lhe bate à porta. À sua frente está um homem que reconhece o verdadeiro valor do seu trabalho e não questiona a sua honestidade. Na sua cabeça só consegue ver os sapatos já acabados à sua frente. Sabe onde pode encontrar o melhor couro e qual o melhor empregado em quem confiar para um trabalho bem executado. Sabe que os sapatos serão cobertos pelo maior número de padrões em forma de ziguezague. Então eu digo-lhe: "Só ponho uma condição: os sapatos devem ser inteiramente lisos, sem decorações." Com isto, o sapateiro sente que foi escorraçado do paraíso e enviado para o inferno. Terá menos trabalho para fazer mas roubei-lhe todo a alegria.
Proclamo aos patrícios. Tolero usar ornamentos no meu corpo se isso trouxer a felicidade ao meu próximo. Nesse caso, seria um motivo de felicidade para mim próprio. Suportarei os ornamentos do cafre, do persa, da camponesa eslovaca, do meu sapateiro, porque nenhum deles tem outro remédia para alcançar o auge da sua existência. Depois de um dia de trabalho regressamos a casa e relaxamo-nos ao som de Beethoven ou de Tristão. O meu sapateiro não pode fazer isso. Não tenho o direito de lhe roubar a alegria porque não tenho nada para lhe oferecer em troca. (...)
A ausência de ornamentos conduziu as artes a um patamar inesperado. As sinfonias de Beethoven nunca poderiam ter sido escritas por alguém que usasse seda, cetim e rendas. Quem se veste hoje em dia com cetim não é um artista, mas antes um palhaço ou um pintor decorador de casas. Tornámo-nos mais subtis, mais refinados. No meio da multidão, as pessoas sentem necessidade de se distinguir umas das outras através das cores distintas que usam. O homem moderno necessita de roupa como uma máscara. A sua necessidade de individualidade tornou-se tão incrivelmente imperiosa que já não se pode ser espiritual. O homem moderno usa ornamentos de culturas antigas e estrangeiras à sua distinção. Para as suas invenções e descobertas, concentra-se em outras coisas."


Excerto do artigo Ornamento e Crime de Adolf Loos, 1908

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