Imperfeição

Querida, indesejada, imperfeição,

O mundo não tem sido um lugar fácil para ti. Cada vez que apareces, seja na forma de um cabelo fora do sítio ou de um erro numa frase, nós, humanos, fazemos o possível e o impossível para te corrigir, mudar e aperfeiçoar. Não há lugar para erros nos tempos de hoje. Já não há tempo para coser os buracos das meias, colar uma chávena partida ou para apreciar os pequenos defeitos de alguém. O mundo pede mudança e quando o novo e o velho combatem, a vitória está sempre do lado da novidade. Assim, substituem-se as loiças, as roupas e as pessoas e começa-se uma nova relação temporária cuja data de validade expira à primeira falha.
Queria culpar-te a ti, imperfeição, mas bem sei que o erro é humano e que a paciência já nem consta na lista de virtudes. A perfeição está à espreita em cada canto e é difícil resistir ao seu encanto. Ela aparece sob a forma de modelos de corpo curvilíneo, fotografias de pequenos-almoços e diálogos sem falhas num filme de hollywood. A perfeição é o combustível ideal para o hábito do consumo. A sua energia tem tanto de inesgotável como de incansável. No entanto, aqui estou eu, a escrever uma carta de amor, sob a forma de pedido de desculpas, à imperfeição.
A expressão japonesa Wabi-sabi significa encontrar a beleza na imperfeição e é isso que eu tenho tentado fazer. Cada erro ou falha presente nas coisas que nos rodeiam ou nas pessoas de quem gostamos não é um pedido de substituição, é um reflexo de autenticidade.  
Está na altura de começarmos a aceitar os erros e as falhas e de os abraçarmos como parte de quem somos e de onde desejamos estar amanhã. O mundo pode estar a ser injusto contigo, imperfeição, mas és mais necessária do que nunca.
As tuas meias podem estar cheias de buracos, mas o reino da perfeição está vazio.