Sextas negras

Sexta-feira, enquanto as lojas se enchiam de saldos e as pessoas de pressa, eu celebrei o Buy Nothing Day. No meu mundo não existiu Black Friday, nem vai existir Cyber Monday. Não andei a explorar as promoções do ebay, nem da Amazon. Não andei a ver montras, nem a percorrer lojas. Em vez disso eu escrevi, li, conversei e fotografei. Foi um óptimo dia, tudo porque eu decidi passa-lo como pessoa e não como consumidor.
Já todos ouvimos dizer que o dinheiro não compra felicidade, mas ninguém parece realmente acreditar nisso. Sobretudo em dias de saldos, promoções ou descontos, quando ficamos vidrados no acto de comprar. Podemos até acreditar que estamos a poupar dinheiro, que não fará mal gastar apenas dez euros mas, no final, comprar apenas por promoção é oferecer a nossa liberdade e a dos outros. Porque se pensarmos nas horas que tivemos de trabalhar para ganhar esse dinheiro ou nas pessoas que fizeram a camisola a troco de quase nada, talvez não pareça assim tão barata.
Cada vez que escolhemos celebrar dias dedicados ao consumo estamos a perder o nosso poder como pessoas. Já não somos nós que compramos os produtos, são eles que nos consumem a nós. Como é possível haver filas e filas de pessoas que esperam à chuva para gastar o seu dinheiro numa loja? Há pessoas que dormem nas ruas e que se sujeitam ao frio porque não têm outra opção mas nós, consumidores, estamos a sujeitarmos a essas condições por um produto que às vezes nem queremos. Já não são as roupas, os eletrodomésticos e as tecnologias que estão baratas. Já somos apenas nós.
Da primeira vez que ouvi falar no Buy Nothing Day fiquei surpreendida. É mesmo preciso haver um dia específico para nos lembrarmos de não comprar nada? Estamos assim tão viciados no acto de comprar que passar um dia sem consumir é motivo de festejo?
Eu sou capaz de passar dias sem comprar nada e sem precisar de me esforçar para o fazer. Quando a nossa mente tem coisas mais importantes para se ocupar, o consumismo é apenas um ruído que ouvimos cada vez menos. Mas, infelizmente, a maioria das pessoas não pensa assim. O consumo é hoje muito superior ao que era há 20 anos atrás e o pior é que este exagero no consumo está a alastrar-se a outras áreas das nossas vivências. 
O autor Byung-Chul Han no seu artigo Porque é que hoje nenhuma revolução é possível? fala precisamente sobre esta questão. Valores como a partilha, a solidariedade e a hospitalidade já se transformaram em bens de consumo. Serviços como o “Airbnb” alugam quartos como se fossem hóteis, transformando a hospitalidade numa mercadoria. Numa sociedade centrada na capitalização dos bens, o minimalismo pode ser uma lufada de ar fresco. 
A Black Friday já terminou mas as compras de Natal ainda estão só agora a começar. Quase toda a gente vai andar a saltar de loja em loja, já eu vou estar bem longe dos shoppings. Quando sair do trabalho vou caminhar até casa com calma, observar como as folhas das árvores estão bonitas nesta altura, ver as luzes de Natal e sentir o frio de Dezembro. Em casa vou encontrar flores secas, cadernos em construção, pedras apanhadas na praia, pedaços de histórias e aguarelas. Tudo aquilo que preciso para criar presentes de natal que não têm preço. Enquanto estiver a fazê-los vou ouvir a minha música preferida, preparar um chá quente e conversar até o dia terminar. Esta é mesmo a minha época favorita do ano, só é pena sentir que quase ninguém a está a aproveitar.