Esperança

Ontem foi um longo dia. Acordei, vesti-me e fui para o trabalho. A partir do momento em que liguei o computador comecei a ser invadida por um sem fim de notícias relacionados com os atentados terroristas em Paris.
A América diz à França que deviam entrar em guerra contra o autodenominado estado Islâmico. A Bélgica transforma-se pouco a pouco numa cidade fantasma e o medo começa a fazer parte do dia-a-dia dos europeus.
Ás 11 da manhã já tinha lido inúmeros relatos dos sobreviventes do atentado ao Paris.
Ao meio dia já sabia que um avião russo tinha sido abatido na Turquia.
Apesar de tudo eu não podia deixar estes acontecimentos assustarem-me. Em algumas horas eu iria estar no concerto da minha banda preferida. Não podia deixar o medo impedir-me de fazer as coisas de que mais gosto.
Entretanto distraí-me com o trabalho e com o frio lá fora. O medo estava a passar. Afinal, Portugal é um país pequeno, a banda não é assim tão conhecida e quase de certeza que vai haver polícias à porta. Infelizmente o meu recente estado de calma perdeu-se no momento em que entrei no Facebook.
12 mortos num ataque terrorista a um autocarro na Tunísia.
É difícil manter a calma quando o mundo parece pior a cada hora que passa.
Quando fui para casa  faltava apenas uma hora para o concerto e eu estava mais nervosa do que nunca. Os meus olhos estavam vigilantes e eu estava desconfiada. Olhava para tudo o que me rodeava com um pouco de medo. Mas mesmo assim não podia deixar as notícias sensacionalistas afectarem-se. Se não tivesse coragem de ir ao concerto da minha banda favorita a 10 minutos de minha casa nunca iria ter coragem de voltar a viajar, de ir a um festival ou de estar no meio de uma multidão outra vez. Eu tinha de ir aquele concerto.
Ainda com um pouco de preocupação na minha mente decidi dar um passo de cada vez. Só preciso de sair de casa, entrar no elevador, descer e ir para a rua. Ok, agora só preciso de ir até ao metro. Passar na mercearia que está sempre aberta até tarde, passar na paragem de autocarro onde às vezes estou à espera e entrar na estação de metro.
Quatro paragens depois estava à porta do teatro onde ia acontecer o concerto.
“Vai correr tudo bem”- disse eu para mim mesma.
Quando cheguei ao teatro havia um polícia lá fora e vários lá dentro. Eles viram o interior da minha mala e revistaram-me. Isso deixou-me mais descansada. A sala estava cheia. O ambiente estava óptimo. Senti que podia descansar.
Antes do concerto começar as pessoas estavam a falar, a rir, a beber cerveja. Entretanto o palco era preparado. De repente ouviu-se um barulho seco e oco que ecoou por toda a sala. A multidão ficou em silêncio total e todos os olhares se focaram no palco. Um dos técnicos tinha deixado cair algo. O silêncio deu depressa lugar a pequenas gargalhadas. Toda a gente estava assustada mas todos estavam ali, a mostrar a eles próprios como era ridículo vivermos constantemente num estado de medo.
Quando as luzes se apagaram e os Beach House entraram no palco fiquei feliz por estar ali. As suas músicas doces, místicas e calmas mostraram que nem tudo está perdido. A cada música que tocavam e cantavam nós éramos transportados para um lugar melhor onde não faltam noites estreladas.
Quando os Beach House acabaram o concerto com a música Strange Paradise senti que tinham escolhido a música ideal para finalizar a noite. Uma metáfora perfeita do mundo em que vivemos. Um estranho paraíso onde podemos estar rodeados de caos mas onde ainda conseguimos criar boas memórias e termos momentos de calma e felicidade. Vai sempre haver algo mau a acontecer no mundo mas também vai haver bons momentos que vamos querer recordar. E se vivermos constantemente com medo vamos estar a oferecer a nossa liberdade mesmo antes de ela ser roubada.
Quando saí do concerto fui para casa em paz. Nessa noite não voltei a tocar no computador. Preparei um chá, conversei e continuei alienada pela música dos Beach House até adormecer.
Hoje quando acordei as músicas continuavam a ecoar na minha cabeça e o mundo já não parecia um lugar tão assustador.