Vogue


Diz-se por aí que a moda é cíclica, e isso é fácil de perceber. Na maior parte das lojas há outra vez à venda calças à boca-de-sino e até há quem defenda que a camurça é o tecido deste inverno. Ainda assim, há um retorno pelo qual eu tenho esperado mas que está a demorar a voltar. Refiro-me às antigas capas da Vogue, onde a arte era a maior das celebridades.
Há uns anos atrás ofereci há minha irmã uma coleção de 100 postais da Vogue, sendo que o primeiro postal corresponde à capa da primeira edição desta revista, que saiu no dia 17 de Dezembro de 1892, e o último apresenta a capa da Vogue de Novembro de 2011, onde vemos muitas cores, muitas mensagens e a atriz Rooney Mara. Entre estas duas edições da Vogue passaram-se 120 anos. Um imenso período de tempo, se pensarmos que entre cada uma destas edições aconteceram duas guerras mundiais, o fim do colonialismo, o despertar da tecnologia, inúmeras crises económicas e um sem fim de mudanças sociais e culturais. Nunca um século foi palco de tantos acontecimentos e evoluções.
No entanto, eu não paro de imaginar como seria se uma leitora da primeira edição da Vogue recebesse a edição de Novembro de 2011. Ela certamente ia achar estranha a capa da Vogue com todas aquelas mensagens, cores e chamadas de atenção. A seguir acho que ficaria a pensar quem seria a pessoa da capa e o porquê de estar numa postura que é tão deselegante para o corpo feminino. Talvez ela também ficasse surpreendida com o tamanho da revista. Tantas páginas, tantos anúncios, tanto conteúdo, tantas lojas, tantos preços. Além disso, já nem há páginas dedicadas à costura no final da revista!
A minha imaginação poderia continuar mas acho que já é suficiente para percebermos que a moda mudou tanto como o resto do mundo em 120 anos. A moda é cada vez mais variada, e o estranho e o invulgar também já têm entrada no mundo da beleza. Mas, com todas as evoluções que conseguimos alcançar perdemos a capacidade de ver a moda como uma arte.
Há uns dias atrás, a Delayed Gratification Magazine fez um estudo baseado na Vogue de Setembro deste ano. Eles analisaram quanto é que teríamos de gastar se seguíssemos cegamente as sugestões da revista e comprássemos tudo o que nos sugerem. O resultado foi o valor astronómico de 638,713 libras, o correspondente a cerca de 875 mil euros. A pior parte foi que não fiquei surpreendida. Já há anos que não compro uma revista da Vogue porque tudo o que eu vejo é um catálogo de compras com fotografias melhores. Não encontro inspiração, beleza nem arte. Apenas preços, objectos e lojas.
Não estou com isto a defender que devíamos retroceder 120 anos, mas acredito que o facto de vivermos num mundo governado pela abundância de informação e pelo consumismo desenfreado está a prejudicar a criatividade e a arte que eu tempos foi associada à revista. As celebridades são certamente ícones importantes da cultura actual e hoje em dia, mais do que nunca, há uma enorme pressão para se venderem revistas mas isso não implica que a capa seja um antro de informação e que seja preciso uma actriz na capa para fazer a revista vender.
A Vogue é a maior revista de moda do mundo. Sobreviveu a duas guerras mundiais, ao fim do colonialismo, ao despertar da tecnologia, a inúmeras crises económicas e a um sem fim de mudanças sociais e culturais. Está na altura de se transformar novamente numa bíblia da moda onde a inspiração, o entusiasmo, a criatividade e a arte são mais importantes do que 875 mil euros em produtos. Entretanto resta-me ficar a admirar as antigas capas da Vogue e as suas ilustrações maravilhosas.