O consumo não é nosso inimigo



O verbo comprar tem má fama entre os minimalistas. Simboliza o perigo, a tentação e o vício. Ainda assim, o consumo não é o nosso inimigo. Porque comprar algo novo é inevitável. Mesmo a mais poupada e minimalista das pessoas vai precisar de comprar comida e bens de vez em quando.
A ideia de que podemos viver uma vida sem comprar nada é irrealista ou mesmo impossível. Se estivéssemos sozinhos numa ilha deserta íamos continuar a precisar de bens, mesmo que esses bens fossem comida e que a forma de os adquirirmos fosse subindo a uma árvore para os apanharmos. Ter poses, objetos e bens faz parte do nosso dia-a-dia e é essencial para vivermos em sociedade.
O que há de errado com o acto de comprar é quando isso se torna um estilo de vida, e não uma acção em si mesma. Não é errado sair para comprar um casaco porque está frio e não temos nenhum, tal como não é errado comprar uma máquina fotográfica ou um computador da Apple se isso nos ajudar a trabalhar melhor e nos ajudar a criar algo novo que é importante para nós. O consumo só se torna negativo quando é impulsivo, rápido e compulsivo. É por essa razão que quando se fala neste tipo de consumo utilizamos o termo consumismo desenfreado.
Quando se compra algo apenas pelo acto de comprar não estamos a ajudar a economia. E quando lemos por aí frases que dizem que ir às compras é mais barato do que ir ao psicólogo não nos estamos a ajudar, estamos apenas a escolher o caminho que as sociedades capitalistas escolheram para nós. Esse tipo de contentamento tem um prazo de validade demasiado curto para valer a pena. Por vezes esse prazer desaparece assim que chegamos a casa e nos apercebemos que a nossa nova compra é já apenas algo mais no armário. Ao compramos algo por impulso ou hábito estamos a desvalorizar-nos.
O ódio que muitos minimalistas sentem em relação ao consumismo deve-se ao facto do consumo desenfreado ser cada vez mais a regra e não a excepção. Algo que tem sido impulsionado pelas várias marcas de fast fashion, que nos fazem acreditar que comprar em quantidade é melhor do que comprar em qualidade.
Quando fazemos compras de coisas que são significativas para nós e que nos podem ajudar a tornar a nossa vida um pouco melhor então devemos orgulhar-nos daquilo que compramos porque, como em todas as coisas, o nosso inimigo não é a acção em si mas o excesso dela.


CONSUMERISM IS NOT OUR ENEMY

The verb “to buy” has a bad rep mong minimalists. It means danger, temptation and vice. Still, consumerism is not our enemy. Buying new things is inevitable. Even the most money-saving and minimalist person will need to buy food and other goods every once in a while.
The idea that we can go a lifetime without purchasing anything is unrealistic, maybe even impossible. If we were alone on an island, we’d still need goods, even if these goods were foods and the way to acquire them was climbing on a tree to get them. Having possessions, objects and goods is part of our daily life and is a core aspect of living in a society.
Buying only becomes wrong when it becomes a way of life, instead of an isolated action. It’s not wrong to go out and buy a coat because it’s cold and we need it, just like it’s not wrong to go and buy a camera or an Apple computer if that helps us work better and create something important for us. It’s for that very reason that when talking about the bad kind of consumerism, we mention crazed consumerism.
When we buy something for the sake of buying, we’re not helping the economy. And when we read stuff like “Shopping is cheaper than a visit to the shrink”, we’re not helping ourselves, we’re just choosing the way capitalist societies set for us. This kind of false happiness ends as soon as we get home and realize our newly acquired items are nothing but extra props on our closets. By buying something by either impulse or habit, we are losing value ourselves.
The hatred that many minimalists feel towards consumerism is due to the fact that crazed consumerism is becoming the rule, instead of the exception. Something that has been pushed by fast fashion brands, which make us believe that paying for quantity is better than paying for quality.
When we shop for things that mean something to us, and can help us make our lives better, we should pride ourselves in in, because, as in all things, our enemy isn’t the things we do, it’s the addiction that comes with them.


6 comentários:

  1. Ótima reflexão, Inês.
    Também não entendo o minimalismo como uma coisa rígida e tampouco pretendo me desfazer do MacBook ou do iPhone. Até porque não os tenho porque todos têm ou qualquer coisa do gênero.
    Não quero ser uma pessoas com aversão às compras, mas assumo que os apelos que vêm de todos os lugares andam me deixando cansada.
    Um beijo!

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    1. Concordo contigo Camila, o minimalismo não se define pelas coisas que nós não temos mas pelas coisas que são essenciais para nós e um iphone pode ser essencial para nós se o usarmos todos os dias e se nos ajudar a criar mais coisas e a ter uma vida mais significativa.
      É só uma questão de ignorarmos as montras e de sermos fiéis ao que é realmente importante para nós :)
      Beijos!

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  2. sim,concordo que o ato não é incorreto quando feito com consciência ,mais a mídia é cruel quando usa propagandas muito persuasivas e nos engana

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    1. É verdade, é muito difícil resistir às compras quando somos constantemente persuadidos de que precisamos de algo novo e melhor. Mas se formos suficientemente fiéis aos nossos gostos e àquilo que é importante para nós acho que conseguimos fazer comprar com a consciência tranquila.

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  3. Acho um pouco dificil encontrar a linha tenuê entre futilidade e necessidade,como aperceber isso?

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    1. Essa linha é mesmo muito tenuê mas para mim o que distingue a futilidade e a necessidade é o quão importante essa compra vai ser para nós. Normalmente as coisas que são mesmo importantes são coisas que nos fazem falta e das quais nos lembramos quase todos os dias. Mas, quando entramos numa loja e queremos comprar um bonito vestido que possivelmente não vamos usar assim tanto já estamos a falar do domínio da futilidade.

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