A lingerie não tem sentimentos



O minimalismo entrou na minha vida de forma simples, easy like a Sunday morning. Contudo, durante todo este tempo, houve uma gaveta que permaneceu fechada às minhas tentativas minimalistas. Houve alturas em que eu tentei arrumá-la e livrar-me de todas as coisas inúteis que lá guardava, mas elas acabavam sempre por voltar. Por mais que eu tentasse ser minimalista na arrumação dos meus soutiens, cuecas, cintos de ligas e corpetes, eles acabavam sempre por ir ficando na gaveta. O motivo por que sentia tanta dificuldade em livrar-me destas peças não era por gostar delas ou por serem confortáveis, era porque sentia que ao livrar-me destas peças estaria também perder sensualidade e confiança. E foi neste momento que me apercebi o quão tola estava a ser. Quase sem dar conta, estava a deixar-me levar pelo truque publicitário mais velho do mundo, estava a olhar para a roupa e a pensar em sentimentos.
Quando finalmente olhei para a minha coleção de lingerie de forma crua, quase que fiquei envergonhada pelas coisas que tinha andado a guardar durante todo este tempo. Já não via sensualidade e confiança em lado nenhum, tudo o que via eram soutiens desconfortáveis, cuecas de licra e coisas que quase nunca vestia, mas que, por alguma razão, eu queria manter por perto. Depois de perceber que a minha coleção de lingerie não era tão maravilhosa como eu pensava, senti que precisava de um novo começo. Retirei tudo da gaveta e experimentei, peça por peça. Se não me sentisse confortável, se o material não fosse algodão e se não visse nenhuma utilidade, eu não manteria essa peça. Escusado será dizer que os meus dez soutiens deram lugar a apenas três. Mas, agora, posso quase escolher qual vou vestir de olhos fechados, enquanto antes tinha de estar constantemente a pensar sobre qual era o soutien que ficava apertado ou qual é que tinha alargado.
É estranho como a publicidade nos pode dar a volta à cabeça. Como continuamos a deixar-nos levar pela ideia de que uma lingerie é tudo o que precisamos para nos sentirmos bem connosco próprias e para agradarmos aos outros.

Neste momento a minha gaveta está bem mais vazia mas acho que posso dizer que finalmente tem apenas o que preciso para me sentir bem. Afinal, a confiança e a sensualidade não estão no interior de uma gaveta. Pelo contrário, quanto menos confiança e sensualidade houver numa gaveta mais pode haver dentro de nós.

LINGERIE HAS NO FEELINGS

Minimalism came into my life in an easy way, easy like a Sunday morning. However, for all this time, one drawer remained indifferent to my minimalistic attempts. There were times I tried to tidy it and rid myself of all the useless stuff I kept there, but they always ended up coming back. No matter how much I tried to be minimal about my bras, underpants, garter belts and bodices, they always ended up remaining in that drawer. The reason why I found it so hard in ridding myself of this pieces wasn't because I liked them or because they were comfortable, it's because I thought that by ridding myself of them, I'd be losing confidence and sensuality. And that's when I realized how foolish I had been. Almost without realizing it, I got carried away by the oldest trick in the advertising book; I was looking at clothing and conjuring up feelings.
When I finally looked at my lingerie collection in a cold way, I was almost shamed by the stuff I kept around for all this time. I no longer saw sensuality and confidence anywhere, all I saw were uncomfortable bras and lycra underpants that I almost never wore, but that for some reason, I'd wanted to keep around. After I understood that my lingerie collection wasn't as wonderful as I thought, I felt I needed to begin anew. I got everything out of that drawer and tried everything on, one by one. If I didn't feel comfortable, if the fabric wasn't cotton and didn't see any use in them, I wouldn't keep that piece. It's no surprise that my previously ten bras became just three. Now however, I can choose which one I'll wear with my eyes closed, unlike before, when I had to constantly think about which one was tight, or which one had widened.
It's weird how advertising can mix us up. How we let ourselves be swayed by the idea that lingerie is all we need to feel good about ourselves and to please others.

As of right now, my drawer is far emptier, and now I can say that it finally only has what I need to feel good. After all, confidence and sensuality do not lie within a drawer, on the contrary, the less there is of them in a drawer, the more can exist within us.


6 comentários:

  1. Sabe que pensei a mesma coisa ontem arrumando minha gaveta de lingeries? Ainda preciso parar com calma e fazer como voce: experimentar tudo!

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    1. Que coincidência Bruna! Eu também precisei de arranjar coragem mas às vezes é mesmo preciso experimentar tudo e sermos o mais honestas possíveis

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  2. Você é incrível

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  3. Eu tambem arrumei ontem a minha gaveta. E por incrivel que pareca, eliminei a maior parte das roupas intimas. Ainda ficou uma caixa de sapatos de cuecas e so 4 soutiens. Baby-doll e similares foram eliminados. Muita coisa para uma so pessoa!
    Parabens pelo Blog te sego da Italia

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    1. Olá Denise! É bom saber que há pessoas a tentarem fazer o mesmo que eu e a quererem ter uma gaveta de roupa intima menos confusa e com roupa mais confortável.
      Obrigada por seguires o meu blogue!

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