Quando os amigos são números



Neste momento tenho menos 28 amigos no Facebook do que tinha esta manhã. Quem estiver extremamente atento há minha presença online pode pensar que a minha popularidade decresceu radicalmente, mas a verdade é que fui eu que escolhi ter menos 28 amigos.
Ao longo dos últimos tempos houve várias vezes que pensei em partilhar uma música que tinha ouvido, uma fotografia de um local onde fui ou um artigo que li, mas acabava sempre por apagar o que quer que tivesse escrito e continuar a minha vida fora da internet. Mas, apesar de estar feliz por passar mais tempo a viver a minha vida do que a falar sobre ela online, comecei a sentir-me cada vez menos confortável com a minha não presença nesta rede social. Afinal, continuavam a haver músicas, fotografias, locais e artigos que queria partilhar com os meus amigos mas, por alguma razão, quando pensava em publicar no meu mural do Facebook eu acabava sempre por mudar de ideias.
Só depois percebi que o problema não estava no que eu ia partilhar, mas nas pessoas a quem ia chegar esta informação. Eu não tinha qualquer interesse em partilhar uma fotografia do meu fim-de-semana em família com aquela pessoa que foi da minha turma na escola primária e com quem não falei desde então. Para mim não havia propósito em partilhar algo para um grupo de “amigos” indiferenciado, para um número.
Esta minha forma de pensar começou sobretudo quando li o livro “The Circle” do Dave Eggers. Este livro fala sobre uma distopia onde a vida online é mais importante do que a vida offline e em que fazer parte de redes sociais é fundamental para a nossa existência. Neste mundo tudo o que acontecesse deveria ser partilhado online e todos deveríamos ser transparentes em relação a todos os aspetos da nossa vida. Contudo, neste livro havia um homem que não compreendia essa obsessão pela presença online. Para ele a partilha tinha sido levada a um limite tão extremo que a ideia de partilhar algo com uma pessoa era impossível. “Eu não posso enviar-te um email porque tu vais imediatamente partilhá-lo com outra pessoa qualquer. Eu não posso mandar-te uma fotografia porque o mais provável é que tu a vás publicar numa rede social. Não achas que isto é uma loucura?”
Eu não achava que isto fosse uma loucura, eu adoro a comunicação online. Mas depois de ler este livro não consegui parar de pensar em como era triste já não haver segredos entre duas pessoas. Já não haver uma distinção entre o que mostramos ao nosso melhor amigo e ao que partilhamos com alguém a quem nunca dissemos mais do que duas palavras.
Ao excluir um grande número de amigos do meu perfil do Facebook senti-me muito melhor. Senti que ao aplicar os princípios do minimalismo às redes sociais que podia finalmente aproveitá-las e apreciá-las melhor. Contudo, talvez isso não seja suficiente. O Facebook continua a ser uma ferramenta importante para o meu trabalho e para estar a par de algumas notícias e acontecimentos, mas acho que encontrei um lugar melhor online para partilhar as coisas de que gosto com as pessoas de que gosto. Esse lugar chama-se Ello e é uma rede social que quer transformar a forma como as pessoas comunicam online. Aqui não há publicidade nem novas publicações a cada minuto. Esta rede social é para quem gosta de calma, para aqueles que preferem partilhar aquilo que criam do que aquilo que compram.
Com uma rede social anti-consumista e minimalista como o Ello, é difícil não sentir vontade de desaparecer de uma parte do ciberespaço para podermos criar uma vida mais calma e com as pessoas certas num lugar mais sossegado e privado.


WHEN FRIENDS BECOME NUMBERS

As of right now, I have 28 fewer friends on Facebook than I did this morning. Those who are extremely on par with my online presence may think that my popularity has decreased radically, but the truth is, It was me that chose to have 28 friends less.
For a while now, there were multiple times in which I thought about sharing a song I had heard, a photo of a place I visited or an article I read, but I always ended up deleting whatever I had written and moved on with my day outside the internet. But, even though I am happy to spend more time living my life than to talk about it online, I started to feel less and less comfortable with my lack of presence on the social network. After all , songs, photos, places and articles that I wanted to share with my friends still existed, but for some reason, whenever I thought about publishing something in my Facebook wall, I always ended up changing my mind.
Only then did I realize that the problem wasn't in what I was going to share, but in the audience that I was getting this content to. I had no interest in sharing a photo of my family weekend with that one person I knew from elementary school and haven't spoken to since. For me, there was no purpose in sharing something with this undifferentiated group of "friends", nothing more than a number.
This frame of mind began for me mostly after reading "The  Circle", by Dave Eggers. This book's story is about a dystopia where the online life is more important than the offline one, and in which being part of social networks is essential for our survival. In this world, everything that happened had to be shared online, and we should all be transparent in all aspects of our lives. There was a man, however, that did not understand this obsession with online presence. For him, sharing had been taken to a limit so far out, that the very idea of sharing something with someone was an impossible concept. "I can't send you an e-mail because you will immediately share it with someone else. I can't send you a picture because you're so likely to share it in a social network. Don't you think this is madness?"
I didn't see this as madness, I love online communication. But, after reading this book, I could not stop thinking about how sad it was that secrets between two persons were no longer a thing, the line between what we show to our best friend and our distant acquaintance, blurred.
By excluding a large number of friends from my Facebook page, I felt much better. I felt that by applying the principles of minimalism to social networking, I could make the most of it and enjoy it better. Still, this might not be enough. Facebook is still an important tool for my job, and it makes me aware of certain information that I might otherwise miss. Still, I found a place more adequate for sharing stuff I like with people I like. It's called Ello, and it's a social network that aims to change the way people interact online. There is no advertising there, and minute to minute status updates. This social network is aimed at those that enjoy peace and quiet, for those who prefer to share what they create, instead of what they buy.

With an anti-consumerism and minimalistic  network such as Ello, it's hard not to feel tempted to vanish from one side of the cyberspace in order to create a more serene online life, surrounded by the right people, in a more tranquil and private space.

10 comentários:

  1. Já faz um tempo que tenho menos que 100 amigos no Facebook, e minha experiência por lá melhorou muito conforme fui fazendo a limpeza e tirando pessoas com quem não tinha nenhum tipo de contato - online ou offline - e que figuravam como amigos apenas ali. Confesso que as vezes me pego questionando se o fato de fazer isso é porque estou me importando demais com a rede social, ou até mesmo se sou um tanto quanto anti-social, porém agora acho meu feed tão mais interessante! Só recebo conteúdo de pessoas e páginas que realmente gosto.

    Tenho um perfil no Ello, porém desconheço pessoas do meu círculo que utilizem, então por enquanto minha conta por lá está parada. Um outro tipo de rede que ingressei recentemente e estou gostando muito é o Medium, por lá existem muitos textos interessantes e a navegação permite descobrir diversos perfis legais.

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    1. Às vezes ser anti-social é precisamente o que precisamos de ser para podermos dar mais atenção às pessoas que realmente merecem.

      Em relação ao Ello também ainda o estou a experimentar. Também não há muita gente que eu conheça que esteja lá, mas esse é parte do encanto que sinto por esta rede social. Acho o Medium fantástico para ler artigos mas por acaso não tenho conta lá.

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  2. Eu apaguei minha conta no Facebook umas duas vezes, a última há muito tempo já. Me sinto muito desconfortável com a falta de privacidade, com a chuva anúncios e com o desespero das pessoas em parecer interessantes. É meio triste porque abri mão de muitos contatos que adquiri durante passeios e viagens (que apesar de fugazes, me trouxeram boas experiências)...

    Não conhecia o Ello, vou dar uma conferida.

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    1. A falta de privacidade também me costuma incomodar. Por isso é que às vezes é mesmo preciso apagar a conta e lembrarmo-nos que a sociabilidade não vive apenas numa página do Facebook.

      Espero que tenhas achado o Ello interessante :)

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  3. Essa sempre foi uma das minhas grandes questões, tanto que o blog ficou privado e não me sinto à vontade de ter uma parte tão grande da minha vida assim exposta a qualquer pessoa.
    Porque parecendo que não, é uma grande parte da nossa vida. :)
    Acho que vou fazer limpezas de Verão no fb.

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    1. Eu também sempre fui um bocado paranóica com a privacidade no Facebook por isso é que precisei de fazer esta limpeza :)

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  4. Olá! Estou no mesmo pé da Marianna. Acho que já fez um ano desde que excluí meu último perfil e, sinceramente, não sinto mais falta. Eu nunca tive muito amigos (o máximo foi 35? Por aí) e avisei os mais importantes onde poderiam me encontrar (por e-mail ou sms, já que não gosto do whatsapp) e adivinha quantos mantiveram contato? Uns 3. Fazer o que, né? :)

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    1. Eu neste momento tenho Facebook sobretudo por causa do meu trabalho, uma vez que gerir redes sociais é uma das funções do meu trabalho mas para a minha vida pessoal o Facebook é como se já não existisse :) Prefiro muito mais estar com os meus amigos pessoalmente.

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  5. to gostando mt de seus questionamentos Inês! tb passo por isso e me vejo viciada em redes sociais,fiz conta no ello mais acho complicado de mexer..

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    1. Obrigada! O Ello ao início pode parecer complicado mas acho que a sua filosofia faz com que valha a pena dar lhe uma oportunidade :)

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