Isto não é ser minimalista!


"Estranho paradoxo, este do humano, 
onde aquilo que é nosso é afinal o que (já) não possuímos. 
Estranho paradoxo num mundo que se habituou precisamente a fazer o contrário, 
a possuir mais do que a perder, a consumir mais do que a experienciar." 
Jorge Luís Borges

Cada vez que digo a alguém que sou minimalista a minha capacidade de argumentação é colocada à prova. Primeiro, surge uma certa confusão no rosto das pessoas. Depois surgem as perguntas que vêm em tom de provocação: "Ser minimalista não é ter apenas 20 objectos?", "Se és minimalista porque é que compraste aquela camisola no outro dia?", "Pensava que os minimalistas não tinham computador nem telemóvel", "Vais vender os teus móveis e dormir no chão?"
Os exemplos podiam continuar ad eternum mas acho que já perceberam a ideia. Ser minimalista tem estado associado a uma infinidade de estereótipos que se aproximam mais de uma vida nómada do que de uma vida simples. É por esta razão que ser minimalista não implica dormir no chão, nem ter apenas 10 objectos, nem deixar de usar o que quer que seja. Ser minimalista é fazer escolhas, é definir o que é importante e o que é secundário, é dar prioridade ao que nos faz sentir bem e ao que realmente gostamos em prol daquilo que a publicidade acha que é o ideal para nós. Resumindo, ser minimalista é escolher o menos em função do mais. Não é escolher nada em função do tudo.
Esta temática já foi abordada pelos The Minimalists, pelo Leo Babauta e por quase todos os bloguers minimalistas que eu sigo, algo que prova que a maior parte das pessoas que se considera minimalista vê a sua vida ser constantemente criticada, quer seja por causa daquilo que não temos nem usados, quer seja por cauda das coisas que temos e usamos.
No meu caso o minimalismo surgiu porque não gosto de estar rodeada por muita coisa, não gosto das prateleiras cheias de livros, nem do armário cheio de roupa, nem da casa de banho cheia de produtos. Acho que quanto menos tenho, menos preocupações sinto, seja em relação ao que vou vestir, usar, ler ou fazer. Mas isto não significa que não gosto das minhas coisas e que estou pronta a viver uma vida nómada, antes pelo contrário, isto significa que dou mais valor às poucas coisas que possuo porque sou mais selectiva. Mas, ser minimalista é sobretudo dar mais valor àquilo que não tem valor. É aprendermos que sabe melhor ir passear pela cidade durante a tarde do que estar a fazer compras. É preferir as experiências ao consumo. O menos ao mais.


THAT’S NOT BEING A MINIMALIST!

"Strange paradox, the human's is
in which that which is ours, is what we no longer possess
Strange paradox, in a world that grew used to acting in reverse
to own more than to yield, to consume more than to experience."
Jorge Luís Borges

Every time I tell someone that I am a minimalist, my ability to advocate my choices is dearly tested. First, a confounded gaze tends to form in the faces of my listeners. Then, the typical provocative questions begin to arise. "Isn't being a minimalist owning nothing but 20 objects?", "If you are a minimalist, why did you buy that new shirt the other day?", "I thought minimalists didn't have any cellphones or computers", "So, are you going to sell your furnishings and start sleeping on the floor?".
This could go on forever, but I think you get the point by now. Being a minimalist has been linked to a multitude of stereotypes that fall closer to the spectrum of a nomad-like life rather than a simple life. It's because of this that being a minimalist does not imply sleeping on the floor, owning only 10 things, or giving up anything at all. Being a minimalist is about making choices, it's about the separating the essential from the superfluous, and to put what makes us feel good and what we really like first, instead of what propaganda tries to drill into our brains.
This topic has been gone over by the Minimalists, Leo Babauta, and by almost every other minimalist blog I follow, which proves that people that think of themselves as minimalistic tend to feel like a target for criticism, whether that's because of things we don't own or use, or because of stuff we have and do use.
In my case, minimalism came into my life because I don't like to feel cluttered, I don't like shelves filled with books, I don't like my closet filled with clothes, nor do I like my bathroom filled with all kinds of products. I believe in that by owning less, I worry less, be it about what I will wear, use, read or do. But that doesn't mean I don't like my things and that I am in any way ready to live a nomad life, not at all, this means only that I value the few things I have more, because I am more selective. But, above all, being a minimalist is about valuing what has no obvious value the most. It's about learning that an afternoon stroll through town is more rewarding than a shopping spree. It's about appreciating experiences over possessions, and less over everything.


14 comentários:

  1. Gostei dessas palavras do Jorge,não conhecia,poderia indicar alguns blogs minimalistas?

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    1. Olá! Vou escrever para a semana um post com os meus blogues minimalistas preferidos!

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    2. Subscrevo! Também não conhecia essas palavras e adorei ler!

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    3. Olá Rita! Obrigada, esta é uma das minhas citações preferidas :)

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  2. Excelente reflexão, Inês! As pessoas precisam se libertar dessas concepções e regras que atribuem para as coisas. Captando a essencia do que significa ser minimalista, cada um que aplique à sua vida da maneira que achar melhor!

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    1. Obrigada Bruna! Também concordo plenamente com o que tu dizes sobre termos de nos libertar das concepções e das regras que existem sobre o que é ser-se minimalista.

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  3. Também já "expliquei" isso pelo meu blog :) é o que faz sentido para nós, a maior parte das pessoas fica a olhar para mim quando eu digo que sou minimalista (o que só acontece nas conversas em que falamos de consumo, caso contrário nem refiro o minimalismo). :)

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  4. É ótimo discutir a simplicidade, para ver justamente como as pessoas se posicionam, o minimalismo é meio que a simplificação das coisas, foi assim que passamos da Arquitetura clássica, barroco, rococó para o modernismo, abriu-se mão dos adornos, deixou tão somente aquilo que era essencial para a funcionalidade e eficiência do edifício, mas, não se abriu mão da plástica, não se abriu mão do conforto, apenas da suntuosidade, do exagero, e o "suntuoso", quando existe na Arquitetura, agora tem outro sentido, na escala, na perspectiva, no uso da cor, ser minimalista está bem longe de ser franciscano, é decidir pelo simples, o simples pensado, escolhido, decidido, estou tentando ser.

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    1. É curioso ter falado na arquitectura, uma vez que é uma das minhas grandes influências! Obrigada pelo comentário

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  5. Gostaria de receber suas postagens
    obrigada Celia Regina
    dra.celiareginacallado@gmail.com

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    1. Bom dia, já está adicionada à lista para receber as postagens no email. Obrigada

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  6. Eu e minha dúvida se sou ou não minimalista, e agora eu acho que sim. Não sou aquele tipo de pessoa que preferem comprar do que viver uma experiência boa com alguém especial.

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