Quem fez a tua camisola?



Tenho por hábito cortar as etiquetas da roupa que compro. Este hábito surge da falta de estética, conforto e utilidade das etiquetas. Afinal de contas, se não preciso de conhecer as indicações especiais de lavagem de determinada peça de roupa, o melhor é cortar esse pedaço de papel e poupar algum desconforto e mal estar à minha pele.
Hoje sei que neste pequeno pedaço de papel pode estar escrita a história da peça que temos nas nossas mãos. História essa que na maior parte das vezes começa com trabalhadores infelizes e termina com consumidores felizes. Tudo porque passamos a gastar cada vez menos dinheiro em roupa sem nos preocuparmos com quem está a pagar por isso.
Quando há um ano atrás o edifício em Bangladesh onde se faziam roupas para a Primark e o Walmark colapsou e matou mais de 1000 trabalhadores os direitos dos trabalhadores voltaram a estas na ordem do dia. Este edifício não apresentava as mínimas condições de segurança e albergava mais de 3000 trabalhadores que trabalhavam noite e dia quase de graça para no final do dia nós podermos comprar roupa ao preço da chuva. Apesar de tudo, esta tragédia serviu como uma chamada de atenção para nós, consumidores. Será que podemos continuar a dormir de consciência tranquila ao sabermos que alguém do outro lado do mundo está a trabalhar sem qualquer tipo de condições?

Como forma de acabar com as más condições associadas ao fabrico de roupa, surgiu o projeto Fashion Revolution, que, como o próprio nome indica, pretende revolucionar o mundo da moda ao sensibilizar os consumidores sobre o ciclo de vida de uma peça de roupa. Através desta iniciativa espera-se que os consumidores fiquem mais atentos às marcas que usam e que, simultâneamente, as marcas se comecem a preocupar mais com as suas responsabilidades humanas e sociais.

Este tipo de iniciativas representam mudanças importantes na educação para um consumismo mais ético e sustentável. Contudo, este tipo de situações não são tão lineares quanto podem parecer. Apesar do colapso da fábrica em Bangladesh ter levado várias pessoas a deixar de comprar roupas com etiquetas"Made in Bangladesh", esta situação pode ser mais prejudicial para as economias locais dos países em desenvolvimento do que para os capitalistas que estão à frente das grandes marcas de fast fashion.

Apesar de iniciativas como a Fashion Revolution estarem a aumentar a consciencialização das marcas a nível social ainda há um longo caminho a percorrer até podermos comprar sem nos preocuparmos com o que está escrito na etiqueta.


WHO MADE YOUR SHIRT?

I have a habit of checking the tags on the clothes I purchase. It comes from the lack of aesthetics, comfort and usefulness of the tags themselves. After all, if we don’t need to be familiar with the special washing instructions of a specific piece of clothing, the best course of action is to cut that piece of paper off and cut my skin some slack.
Nowadays, I know that that piece of paper might contain the tale of the item we hold in our hands. A tale that for the most part, begins with unhappy workers and ends in happy consumers. All because we are spending ever decreasing amounts of money on clothes without worrying about who’s actually paying for all that.
When about a year ago the building in Bangladesh where clothes for Primark and Walmark collapsed and killed over a thousand workers, their rights found their way back into the spotlight. This building was nowhere near minimum safety standards and held over 3000 workers that labored day and night almost for free, so that at the end of the day, we could buy clothes for next to nothing. This tragedy was a wakeup call for us, the consumers. Can we really sleep with a clean conscience knowing that someone in the other side of the world is working in this sort of situation?
As a way to end terrible conditions at the workplace in the world of clothing, the Fashion Revolution project was created, which as the name implies, intends to revolutionize the world of fashion by sensitizing consumers about the lifecycle of a piece of clothing. Through this initiative, it’s expected that consumers will pay more attention to the brands they use and that, simultaneously, brands start caring more about their responsibility towards their workers.
This kind of incentive heralds important changes in education for healthier and more ethical consumerism. However, this kind of situation isn’t as simple as one would think. Even though the Bangladesh factory collapse caused many to cease purchasing clothes tagged as “Made In Bangladesh”, this situation may be more harmful for local economies of under developed countries than for the capitalists at the forefront of the largest fast fashion brands.

Even though initiatives such as Fashion Revolution are increasing the awareness of brands at a social level, there’s still a long way to go until we can buy without worrying about what’s on the tag.

4 comentários:

  1. Adorei esse projeto! Eu costumava comprar coisas na China antes de começar esse meu ano sem compras e agora, assim que voltar a comprar, não quero comprar nada que custe barato à custa do sofrimento de alguém. Muito egoísmo pensar apenas na vantagem de comprar uma peça barata e esquecer que, pra ela custar esse preço, alguem está ganhando muito, muito pouco pra faze-la!

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    1. Olá Bruna! Escrevi este post precisamente para mostrar que aquilo que pensamos que é um verdadeiro achado para nós pode estar a prejudicar alguém! Em breve vou escrever mais artigos sobre o tema do consumismo ético e as condições de trabalho que certas marcas de roupa defendem, espero que também aches interessante!

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  2. Não compres nada fabricado em Portugal: horários de 10h/12h por dia, salários (na maioria dos casos) abaixo do limite legal, exploração, ameaças, pressões, falta de condições nas fábricas, pessoas tratadas como animais.

    Já viste uma fábrica em Portugal? Por dentro?

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    1. Infelizmente tenho consciência de que existem situações destas por todo o lado, não só lá fora mas também cá dentro. Mas acredito que é preciso que as marcas sejam cada vez mais transparentes em relação aos seus métodos de produção, caso contrário poderemos estar a prejudicar a economia de um país inteiro baseados nos casos maus e não nos casos bons. Impossível? Talvez, pelo menos por agora, mas talvez se os consumidores começarem a ser mais exigêntes com a forma como os seus produtos são feitos e se aceitarem pagar o valor real de uma peça de roupa, talvez aos poucos estas condições desumadas comecem a ser mais censuradas e a desaparecer.

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