Banda sonora para belas tardes cinzentas



Mac Demarco – This Old Dog   

"Sometimes my love may be put on hold
Sometimes my heart may seem awful cold
These times come and these times go
As long as I live, all you need to know is

This old dog ain't about to forget
All we've had
And all that's next
'Long as my heart's beating in my chest
This old dog ain't about to forget"



Flamingos – Souvenier

"Se a tua falta me escapar
deixaste no teu lugar
um souvenir para lembrar
que te hei-de visitar"



Beach House – She's So Lovely

"Castles in the sand
Money in your hand
And all I have to do
Is everything for you"



Velvet Underground – I’ll be your mirror

"I'll be your mirror
Reflect what you are, in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you're home"



Hope Sandoval And The Warm Inventions - Let Me Get There

"Did you feel only remembering his face, looking away?
Everybody here knows you're the fine one
Not all the things that you gain can be, can be possessed
This is the way you say we'll keep it in our best"



Devendra Banhart - Middle Names

"And I can see you now
Sitting there in front of the station
Feel the rain fall down again"



Rodrigo Amarante – Tardei

"Tardei, tardei, tardei
Só na volta eu vi
Qual senda me levou
Qual me trouxe aqui
Pra encontrar você
Onde está, meu lugar?"



Bryan Ferry & Todd Terje - Johnny & Mary

"Johnny's always running around
Trying to find certainty
He needs all the world to confirm
That he ain't lonely
Mary counts the walls
Knows he tires easily"



Rhye - The Fall

"Don't run away, don't slip away my dear
Don't run away
The song is gone
The fell into the fall
But I don't want it this way
Why can't you stay"
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Desejar uma pedra, quando se tem estrelas



Cheguei atrasada à festa, como acontece sempre quando se fala de séries. Quando comecei a ver Mad Men já faltavam apenas três episódios para o derradeiro fim. Ainda assim, dia após dia, fui vendo os episódios com o meu entusiasmo e fascínio de principiante. Quase um ano depois de ter acabado de ver a série, há um episódio que a minha mente não se cansa de relembrar. 

Joan está a ter um dia mau e Don convida-a para ir com ele fazer um teste drive à Jaguar. Joan apaixonado por um carro vermelho. O carro mais bonito alguma vez feito, como referiu o vendedor. “Eu quero um” – diz logo de seguida Joan, deixando a sua voz suave mostrar o seu desejo. 

Na cena seguinte vemos o carro à porta de um hotel, e o Don e a Joan no bar. Ele diz que, por alguma razão, o carro não significa nada para ele. Ao que a Joan responde, sem hesitar: “É porque estás feliz. Não precisas dele.” 

Incansáveis vezes, senti-me como o Don. A vaguear por shoppings repletos de mensagens tentadoras ou a observar um tecido delicado numa pequena loja austríaca, a minha mente fugia sempre para algo melhor, um estado de espírito de pura felicidade que fazia com que a mais bonita das peças parecesse desinteressante. 

Já Thomas More escrevia no livro Utopia, "Os utopianos admiram-se dos seres que se deleitam com a luz incerta e duvidosa de uma pedra ou de uma pérola, quando têm os astros e o sol para encher os olhos."

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2017



A noite estava escura e o frio fazia jus ao dezembro invernal dos últimos dias do ano. A expectativa era de festa, mas escolhemos o conforto. Deixámos de lado o glamour, brilho e exaltação e celebramos a entrada no novo ano com a simplicidade honesta de quem não deseja estar senão com a melhor companhia. Fizemos crepes, acendemos velas que sopram faíscas e da janela embaciada vimos o céu encher-se de pequenos pontos luminosos, que logo desapareceriam na escuridão.

De súbito era Janeiro e, pela primeira vez, comecei a sentir uma ligeira nostalgia pelos meses que tinha deixado para trás, pela felicidade doce e satisfatória com que vivi a maioria dos meus dias em 2016. Mas ali estava eu, ainda feliz, ainda na melhor companhia.

Este pensamento deixou-me de imediato com vontade de pensar no futuro. Na minha mente ressoavam as palavras consistência e experiências. Conceitos quase contraditórios, mas que retratam tão bem a minha ideia de equilíbrio. Seguindo a minha intuição, considerei essas palavras minhas e declarei-as como manifesto daquilo que desejava para os próximos meses.
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12 simples histórias

Sempre ouvi dizer que a História é importante. Ela tem o poder de nos ajudar a compreender o presente e a prever o futuro. Talvez por isso eu tenha escolhido dezembro para escrever sobre o que já passou, para relembrar os doze meses que ficaram para trás. Sem nostalgia, lamentações ou resoluções. Apenas agradecimentos. Pequenas cartas de amor às coisas simples.
Um ano dividido em doze momentos.


JANEIRO

Janeiro chegou em paz. O cansaço esgotante do final do ano deu lugar a dias mais calmos e a clareza da mente. Mudanças, inspirações e decisões iriam chegar. 



FEVEREIRO

A tarde foi atarefada mas passou-se de forma calma por entre flores, lenha para o forno e conversas pausadas. O calor do sol e do forno criou o ambiente perfeito para criar os biscoitos dourados que me lembro de comer desde sempre. As minhas calças pretas ficaram repletas de farinha, os dedos de massa e a mesa de açúcar mas no final do dia essas foram as melhores lembranças. O mês acabou tão bem como começou.


MARÇO


Em Fevereiro planeou-se, em Março concretizou-se. No início deste mês entrei num avião rumo a Milão, o início de uma viagem por cinco países em oito dias. A maior parte dos dias foram passados a andar de comboio pela Áustria, onde me apaixonei pelas montanhas nevadas, pelo azul névoa do céu e pela calma das cidades. O frio foi sempre uma constante mas também o foi a aventura. Houve gargalhadas contagiantes, comidas deliciosas e sítios de cortar a respiração. Foram apenas oito dias mas pareceram oito meses. No momento de voltar a nostalgia não me largou. Eu estava cheia de histórias para contar mas ainda não estava pronta para regressar.


ABRIL

Abril foi o primeiro mês. Os primeiros trinta dias dedicados a fazer aquilo que mais gosto. Deixei a minha velha rotina, mudei de hábitos. Entretanto eu li, ouvi música e explorei o meu lado mais criativo. Acho que nunca trabalhei tanto. Houve dias em que acordei às cinco da manhã para ir tirar fotografias, escrever poesia, fazer entrevistas e reportagens. Passei noites a ler Patti Smith, a ouvir discos e a folhear revistas. Entretato a primavera chegava.


MAIO

A praia ao amanhecer. A rota do chá onde descansei depois de um dia de trabalho. As casas históricas onde outrora a nobreza passeou. O atelier de desenho onde dormi. As paisagens que passam a correr ao meu lado cada vez que regresso a casa. 


JUNHO


Acordar em noite profunda. Quatro, cinco da manhã. O junho ainda era frio e o sol ainda tardava. Caminhar sonolenta até um taxi. Ver os candeeiros da rua a apagar através da janela embaciada. Ruas adormecidas, estradas desertas, semáforos vermelhos. Vamos à praia ver o nascer do sol. Temos um balão de ar quente com vontade de voar. A areia era fria e os pés estreavam-se no mar. Só se avistavam pescadores solitários e gaivotas barulhentas. Ontem toda a gente tinha festejado. Martelos de borracha, algodão doce, música de baile e gritos de diversão. Hoje só restou a calma, uma praia vazia e um balão colorida a perder-se de vista.


JULHO

O cheiro das tintas, do azul no papel, das máquinas que não param. As folhas soltas, os testes de cor, os erros que se escondem. Re-ler e rever. Re-escrever e compor. Assim foi este mês. Julho quente, os pés em água, a cabeça em roda. Noites longas, dias sem fim. Andar para trás e para a frente. Ir ao norte, correr para sul. E no fim a paz, em forma de papel.


AGOSTO

Agosto era o pior mês. Pelo menos costumava ser. Os dias eram cansativos, aborrecidos. Calor demais, actividades a menos. As aulas ainda demoravam a começar e o entusiasmo das férias já tinha sido substituído pela monotonia. Mas o que era, nem sempre será. Este ano não houve um dia por preencher. Cada hora foi aproveitada plenamente. Ler à sombra, ouvir música no comboio, escrever postais e nadar no rio. Sempre fui uma rapariga de inverno e Setembro sempre será o meu maior amor, mas, este ano, Agosto roubou a minha atenção e um pouco do meu coração.


SETEMBRO

Não gosto de escrever sobre música. Descrever sonoridades, analisar acordes e romantizar letras não é para mim. O que eu gosto de fazer é ouvir. Fechar os olhos, adormecer a minha mente e deixar-me envolver na beleza de uma música. Beach House, Deru, Devendra Banhart, Rodrigo Amarante.


OUTUBRO

Corpo são, mente sã. Encontrei no movimento, no exercício do corpo, a paz de espírito. Já sentia falta desse cansaço que traz calma, dos músculos que doem enquanto a cabeça descança. Na sala não há espelhos, nem espaço para vaidades. A imagem é um  pormenor quando temos consciência do nosso corpo.

NOVEMBRO

Era sábado e o frio de fim de tarde já se fazia sentir. Caminhei até à minha livraria preferida para aprender sobre Haiku, um tipo de poesia japonesa onde os sentimentos são descritos através da natureza e o tempo é marcado em função das cerejeiras em flor, da água que pinga do tecto ou do cantar de um pássaro. 

DEZEMBRO

O mês mais belo. Narizes vermelhos, pele de galinha. Um ano a terminar e aqui estou eu, a admirar o que já passou, a recordar o que ficou. 
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Acordar a perder

Na última quarta-feira o mundo acordou em sobressalto. Ainda estava deitada quando ouvi um "Oh não" e soube de imediato o que tinha acontecido. Ele ganhou. Durante o resto do dia senti que arrastava uma nuvem de dúvidas comigo. Como se estivesse a assistir a algo mau, a um daqueles momentos que ficam na história pelas piores razões. Trump ganhou, Hillary perdeu,e eu nunca antes me tinha importado com as presidenciais de um país que raramente me impressiono pela positiva. Mas, desta vez, não só tinha seguido as eleições como estava informada sobre os candidatos, as sondagens e as promessas. Ou pelo menos assim eu pensava. 
Muitos se perguntam como é possível ele ter ganho. Fácil, ele teve a maioria dos votos necessários. O que me partiu levemente o coração foi não saber antes que isso ia acontecer. Trump foi retratado nos meios de comunicação como um bobo da corte, via caricaturas a mostrar o ridículo das suas afirmações quase diariamente mas nunca ninguém escreveu sobre as multidões que o seguiam, ninguém nos avisou que os milhões que o idolatravam conseguiriam fazê-lo chegar a presidente. Ele ganhou e com ele os meios de comunicação perderam, as sondagens perderam, as pessoas perderam.
Eu pensei que estava informada. Eu acreditei, inocentemente, que quem grita mais alto, quem ofende mais, perde. O filósofo Zizek disse que Trump precisava de ganhar para o mundo poder acordar. Dar um passo atrás para dar dois passos à frente. Eu só lamento profundamente as trevas que se vão viver antes de conseguirmos ver a luz. 
Costumo dizer que as pequenas decisões que tomamos têm o poder de mudar o mundo. Cada vez que gastamos dinheiro, estamos a votar no tipo de sociedade em que queremos viver. Esta eleição mostrou-me que não basta desejar que tudo aconteça pelo melhor, é preciso mostrar interesse, tomar decisões, combater a indiferença. Quarta-feira a dignidade e o respeito acordaram a perder. Agora está na altura de fazer a bondade, a igualdade e o conhecimento ganhar.


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Aprender a descansar



Pés cansados. Mãos frias. Cabeça em água. Oito horas de trabalho depois, o corpo pede descanso. Atirar os sapatos. Procurar o sofá. Televisão ligada, telemóvel na mão. O início e o fim da noite está mais do que planeado, está determinado. Haverá tempo para ler, correr, passear e conversar mais tarde. Talvez amanhã, talvez terça-feira.
Nós, humanos, somos criaturas de hábitos, dos bons e dos maus. Somos capazes de organizar o dia de trabalho ao minuto, mesmo antes de começar. Escolhemos o que vestir, preparamos o pequeno-almoço do costume e seguimos o caminho de sempre. As oito horas seguintes são um sem fim de tarefas a concretizar, sítios onde ir, coisas a fazer. Ao fim do dia merecemos descanso.
O descanso é frequentemente usado como um sinónimo de inércia, de não fazer absolutamente nada e acreditar que nos vamos sentir bem a seguir. Eu gosto de estar confortável no sofá a ver uma série após um dia atarefado mas, na maioria das vezes, estar sentada a olhar para um ecrã é a última coisa que me apetece fazer. O hábito de chegar a casa e entrar automaticamente em modo preguiça com os olhos vidrados no feed do Facebook, não é sinónimo de descanso para mim.
Fala-se muito do minimalismo associado a coisas e objetos mas ser minimalista é sobretudo priorizar o nosso tempo e dar importância àquilo que é bom para nós, mesmo quando estamos a descansar. O meu tempo de lazer segue a máxima do corpo sã, mente sã. Vou nadar ao fim da tarde, leio ao início da noite. Passo a tarde a escrever, dedico a noite ao ioga. É um jogo de equilíbrio onde há sempre mais variáveis. Ouvir os meus discos preferidos, conversar, caminhar em ruas desertas, rever amigos, beber chá com limão, fazer panquecas à meia-noite.

Há quem diga que devíamos organizar o nosso lazer, eu acho que só precisamos de o aproveitar.
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Diário de Agosto

Agosto era o pior mês. Pelo menos costumava ser. Os dias eram cansativos, aborrecidos. Calor demais, actividades a menos. As aulas ainda demoravam a começar e o entusiasmo das férias já tinha sido substituído pela monotonia. Mas o que era, nem sempre será. Este ano não houve um dia por preencher. Cada hora foi aproveitada plenamente. Ler à sombra, ouvir música no comboio, escrever postais e nadar no rio. Sempre fui uma rapariga de inverno e Setembro sempre será o meu maior amor, mas, este ano, Agosto roubou a minha atenção e um pouco do meu coração.


LIVROS

Não vejo noticiários na televisão, mas o jornalismo é dos meus maiores interesses. Quando estudava na universidade, havia sempre um pequeno excerto do Eça de Queirós que costumava aparecer nos meus apontamentos. Era do livro Cartas Familiares e Bilhetes de Paris e falava da relatividade das notícias e de como os acontecimentos longínquos significam menos para nós do que aquilo que nos é próximo. Nunca me revi nesta realidade. Por mais interesse que tenha por aquilo que me rodeia, a minha curiosidade está no que desconheço. Talvez seja por isso que a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho é das minhas escritoras preferidas. Ela viaja do Afeganistão ao Brasil, do México à Síria. Vê o bom e o mau e relata-o com uma vivacidade que quase nos faz acreditar que estamos ali, mesmo ao lado dela, a cheirar as rosas de Cabul, a tremer ao som das bombas no Líbano. O livro Caderno Afegão foi dos meus favoritos e este mês decidi continuar a viajar através das leituras dela. De dia, via os jogos Olímpicos no Brasil, à noite lia sobre esse belo país cheio de contrastes no  seu livro Vai Brasil. Em tardes de calor, quando tudo o que desejava era uma sombra e uma bebida fresca, trocava o jornalismo pelo romance e lia E a noite roda, também da Alexandra Lucas Coelho. Acho que ela foi a minha obsessão de verão, mas tenho a certeza que me fará companhia no Inverno.


MÚSICA

Não gosto de escrever sobre música. Descrever sonoridades, analisar acordes e romantizar letras não é para mim. O que eu gosto de fazer é ouvir. Fechar os olhos, adormecer a minha mente e deixar-me envolver na beleza de uma música. As que não saíram da minha cabeça este mês foram She's so lovely dos Beach House, Middle Names do Devendra Banhart, Tuyo do Rodrigo Amarante e o albúm O Grande Encontro de Toquinho, Vinícius e Maria Creuza.



YOUTUBE

Este mês sinto que passei mais tempo do que é costume a ver vídeos no Youtube. Comecei a ver a mini série da Vogue What on Earth is Wellness?, onde a modelo Camille Rowe fala com neurocientistas, nutricionistas e psicólogos sobre o que é o bem-estar e como o podemos atingir. Também comecei a seguir o canal Vox que aborda temas da actualidade e nos esclarece sobre ciência, educação, história e cultura em pequenos vídeos de cerca de 15 minutos.


Espero que o vosso mês de Agosto tenha sido tão agradável e completo como foi o meu.

Obrigada


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Sem mais, nem menos

Pergunto-me, frequentemente, se deveria escrever mais sobre subtracções.
Começaria por escolher as variáveis e aplicaria esse fórmula maravilha a tudo o que me lembrasse. O menos tomaria conta do armário, da cozinha, da sala e, quem sabe, até das pessoas. Tudo o que restaria seria o fundamental. Um conceito que se definiria com base naquilo que eu, e apenas eu, considero essencial. Poderia escrever sobre isso. Contar como há mais espaço à minha volta, falar sobre o que doei, apaguei e eliminei, mas ando distraída. Como posso escrever sobre as vantagens da subtracção, quando os meus dias estou envoltos em conversas que não quero que acabem, experiências que me abrem os horizontes e sítios que me fazem ansiar por mais, e não por menos.

Cheguei à conclusão que não o poderia fazer.

Por isso,

sem mais, nem menos,

faço deste texto uma espécie de nota de apresentação ao que está para vir.

Aos momentos que enchem os meus dias.

Aos recantos que me enchem de inspiração.

Ao conhecimento, à calma e à beleza. 
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Sentidos

As minhas escolhas definem-se através dos sentidos. Pequenas intuições, fragmentos de uma força que, como um íman, me guiam em direcção àquilo que sinto ser correcto, bom, significativo. Pode-se dizer que me deixo levar pela consciência mas o contrário é mais correcto. Os pensamentos que percorrem a minha mente, a noção do que é certo e errado, os caminhos que sigo e os que deixo para trás. Tudo isto não é mais do que uma consciência educada, atenta e curiosa. Eu quero conhecer o que me rodeia, saber quem fez as minhas roupas, enumerar os ingredientes dos produtos que uso. O mundo está cheio de relativismos e, em algum momento, todos nós já concordamos em discordar, mas orgulho-me de estar em sintonia com os meus sentidos - a consciência das minhas acções.
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Por um futuro melhor

Os dias vêm uns atrás dos outros, como as cerejas que comi ao longo da amena primavera que alegrou as minhas horas de trabalho. As manhãs depressa se tornavam tarde e a noite não era mais do que a antecipação da madrugada. Entretida e fascinada com o que me rodeava, decorei as paredes brancas da minha casa e fiz delas mural para a minha inspiração. As montanhas sem fim, o design invejado, a escrita de uma velha lenda. Símbolos de um ideal de qualidade a alcançar. 
Os discos giravam no gira-discos sem nunca me aborrecer por ouvir sempre as mesmas cantigas. Excepto à noite, nas horas do descanso, onde a falsa luminosidade dos computadores dava lugar a conversas sussurradas, livros da Patti Smith e filmes do Godard.
Houve dias em que acordei às quatro da manhã para filmar o reflexo da lua cheia na água e para estrear a areia da praia antes do início do verão. Houve noites em que escrevi até às duas da manhã, quando os olhos já pediam descanso mas o entusiasmo exigia trabalho.
As ideias desenvolviam-se, os nomes mudavam, o conteúdo nascia. O minimalismo perdeu a sua pureza e misturou-se com a arte. O consumo cedeu à literatura, a sustentabilidade à cultura e o desejo de criar um futuro melhor que o presente nasceu.
Cedi assim ao idealismo e rendi-me às artes. Sujei as mãos de tinta azul e fiz gravuras do Stonehenge. Escrevi sobre técnicas de restauro ancestrais, elogiei a impermanência e entrevistei aqueles que encontraram equilíbrio no minimalismo e na simplicidade.
Apesar de vivemos numa era onde a velocidade, a abundância e o desperdício dominam, eu acredito que chegou a hora de dar uma nova oportunidade à eficiência, à criatividade e à qualidade.
Este foi o início da NEVOAZUL - uma revista sobre menos e mais, onde o consumismo, o minimalismo e a sustentabilidade se cruzam com a cultura, a literatura e a arte.
Com esta revista eu quero abrir um debate sobre como a responsabilidade social, a sustentabilidade e o consumo ético podem fazer a diferença no nosso futuro. Espero que esta revista desperte o teu interesse tanto como tem despertado a minha vontade de ser criativa, de escrever e de mudar o mundo que me rodeia por uma versão mais simples mas significativa. 
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Reiniciar

Ainda me surpreendo com a facilidade com que infringo o meu equilíbrio num dia ocupado. Bem tento justificar-me junto da minha consciência e dizer que falta só mais uma tarefa, mesmo quando já passaram três horas e a lua é a nossa única fonte de luz. Quando se gosta do que se está a fazer é fácil confundir o trabalho com o lazer e fazer do equilíbrio uma linha recta onde as horas são uma continuação incansável das mesmas tarefas. 
Respiro fundo e deixo o meu corpo e mente ceder ao descanso. Fecho o browser com os seus dez separadores abertos. Guardo o artigo que estava a escrever. Paro de pensar e reinicio.
Amanhã começo do início. Sem excessos informativos, nem objetivos para cumprir.
Apenas pequenas tarefas a ser executadas ao sabor do vento.
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Diário de primavera

Abril foi o primeiro mês. Os primeiros trinta dias dedicados a fazer aquilo que mais gosto. Deixei a minha velha rotina, mudei de hábitos e comecei a minha revista, a NEVOAZUL. Entretanto eu li, ouvi música e explorei o meu lado mais criativo. Acho que nunca trabalhei tanto. Houve dias em que acordei às cinco da manhã para ir tirar fotografias, escrever poesia, fazer entrevistas e reportagens. Passei noites a ler Patti Smith, a ouvir discos e a folhear revistas.
Este post é um pequeno diário desta primavera. Uma estação em que as horas passaram com serenidade e o trabalho foi tão apreciado como o lazer.

Música

Começar a ouvir um novo artista é algo raro para mim. Sou uma pessoa de hábitos, repetições e amores constantes. Mas este mês descobri o Deru e soube quase instantaneamente que ele ia fazer parte da minha restrita biblioteca musical. Deru é um produtor de música electrónica também conhecido como Benjamin Wynn que explora novas sonoridades baseadas em acordes clássicos. As suas músicas têm uma espécie de beleza nostálgica que preenche discretamente o espaço envolvente sem nunca incomodar. Tenho ouvido sobretudo o álbum 1979, uma cápsula do tempo, uma meditação sobre nostalgia. De acordo com o artista, a memória é uma das nossas maiores dádivas. Ela dá-nos acesso ao tempo, à identidade, aos sonhos e o álbum 1979 é uma celebração disso.

Artes

No início de Abril tive oportunidade de experimentar fazer gravura, uma técnica onde se consegue obter uma imagem através de um processo de impressão artesanal. Apesar de usualmente se utilizar uma chapa para fazer o desenho, nós usamos o interior de pacotes de leite para desenhar. Depois do desenho estar terminado faz-se um leve corte sobre o desenho e preenche-se a superfície com tinta. Coloca-se depois na prensa para transformar a imagem numa gravura.


Leituras

Ao longo deste mês li o livro Wabi Sabi - The japanese art of impermanence. Um pequeno livro que me permitiu compreender melhor o significado de efemeridade, imperfeição e transição. Conceitos enraizados na cultura japonesa que explicam como os prazeres da vida estão associados à aceitação da brevidade da vida e à apreciação das pequenas coisas que nos fazem felizes. 



Sítios

A praia de Leça da Palmeira ao amanhecer. A rota do chá onde descansei depois de um dia de trabalho. As casas históricas onde outrora a nobreza passeou. O atelier de desenho onde dormi. As paisagens que passam a correr ao meu lado cada vez que regresso a casa. 


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Modernidade

O actor e realizador Jacques Tati, um dos grandes mestres do cinema francês, utilizou cenários em cores pastéis e música instrumental para criticar a sociedade moderna, o materialismo e o uso implacável das tecnologias.
Monsieur Hulot, o “alter-ego” de Jacques Tati, é uma personagem frequente nos seus filmes. Uma alma antiga que usa chapéu, sobretudo, cachimbo e guarda-chuva mas que vive num mundo ansioso pelo futuro e pela mudança. No filme “Mon oncle” o Monsieur Hulot é o único membro da família Arpel que não se encaixa na mentalidade de consumo em que eles estão mergulhados. 
Hulot vive na parte antiga da cidade, onde as crianças brincam na rua, os vizinhos se conhecem e a simplicidade reina. A sua irmã vive na periferia, do outro lado do muro em ruínas, numa casa tão futurista que tudo é esteticamente apelativo mas nada é prático. Hulot vê-se perdido neste mundo onde a tecnologia é retratada como um paradoxo e a procura pela simplicidade, limpeza e inovação resulta na complexidade, apatia e caos. O exemplo perfeito da escravidão moderna em que o automatismo das máquinas acentua a falta de genuinidade das relações sociais. 
Ao retratar as marionetas da indústria cultural, este filme simboliza o início de uma geração que preferiu o consumo da novidade ao consumo de necessidade, o exibicionismo às vivências. O filme Mon Oncle pode ter sido lançado em 1958, como uma sátira ao conceito de modernidade tecnológica na vida familiar dos anos 50, mas é mais actual do que nunca.

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Revolução

Quando penso em consumo desenfreado há uma imagem que não me sai da cabeça. Uma multidão de pessoas em histeria a gritarem e a empurrarem-se umas às outras enquanto lutam por aquilo que desejam. O cenário parecia similar ao de uma catástrofe mas o motivo para tanto alarido era simplesmente a inauguração da colecção da Balmain para a H&m.
Estas colecções surgiram como uma forma de democratizar a moda, dando às massas a possibilidade de comprarem uma peça de designer por um preço inferior. Infelizmente, o preço parecia ser a única coisa que importava. Ninguém se preocupou em ver a colecção, apreciar aquilo que o designer tinha criado ou pensar na razão porque gostariam de ter uma peça da Balmain no seu armário. 
Este pequeno acontecimento consegue retratar de forma clara a razão porque precisamos de uma revolução na moda. O preço e a influência das celebridades parece ser hoje mais valorizado do que o trabalho do designer ou a qualidade do material. Antes existiam colecções de primavera/verão e de outono/inverno e as compras organizavam-se em função das estações. Havia costureiras e alfaiates, os buracos das meias eram remendados e havia uma maior preocupação com a qualidade e a durabilidade de uma peça.
Agora a moda é inconstante, imprevisível e incansável. Semanalmente chegam novas colecções às lojas e novas lojas às ruas. Os preços nunca foram tão baixos e a qualidade é a menor das preocupações. Hoje ninguém se importa se uma camisola da Primark tem a costura torta ou o colarinho descosido porque o preço justifica as imperfeições. Vivemos na sociedade dos restos, das peças com defeito. A diferença é que não estamos a comprar em lojas de segunda mão, nem directamente às fábricas. Estamos propositadamente a pagar por productos de baixa qualidade e há pessoas a sofrer e a morrer por isso. Estamos assim tão desesperados em comprar algo novo que a única coisa que interessa é o preço marcado na etiqueta? Como podemos exigir qualidade e transparência às marcas de fast fashion se eles sabem que o valor mais baixo vence sempre? O que aconteceria se os consumidores recuperassem a sua dignidade e exigissem às lojas roupas melhores? O ritmo teria de abrandar, o preço subiria e não haveria novidades semanalmente. Mas seria isso assim tão mau?
As idas ao shopping nos fins de semana e as épocas dos saldos deixariam de ser eventos em si mesmo. Talvez as pessoas começassem novamente a ir aos museus e a passear nos jardins. O consumo voltaria a ser feito por necessidade e os preços mais elevados iriam obrigar-nos a comprar apenas aquilo que precisássemos e gostássemos. 
Infelizmente isto ainda é uma espécie de utopia. Passados quatro anos da morte de mais de mil pessoas nas fábricas em Bangladesh, a indústria da moda continua a produzir roupa a uma velocidade estonteante, desprezando os direitos humanos e o meio ambiente. A nossa responsabilidade como consumidores e seres humanos é certificarmo-nos que aquilo que vestimos não custou a vida de ninguém. É preciso sermos curiosos e questionarmo-nos sobre quem fez as nossas roupas e em que condições é que vivem. Só ao mostrarmos o nosso interesse em conhecer as pessoas por detrás das marcas é que vamos conseguir melhorar as condições das cadeia de produção, a qualidade dos materiais e o bem estar humano e ambiental.

Amanhã começa a Fashion Revolution week, uma semana onde somos convidados a questionar a indústria da moda e o processo de produção daquilo que vestimos. Três anos depois da morte de milhares de pessoas nas fábricas têxteis de Rana Plaza em Daka, Bangladesh, há cada vez mais iniciativas para aumentar a transparência na indústria.
Ao longo deste post partilho alguns filmes, podcasts e artigos sobre as pessoas que estão a tentar pôr a responsabilidade social, o meio ambiente e a sustentabilidade outra vez na moda.


FILME

Com o objectivo de contribuir para uma indústria da moda mais sustentável, The next black: A film about the future of fashion explora o futuro das roupas através do olhar e das opiniões de algumas das marcas e pessoas mais inovadoras da indústria. Será que o consumo em massa vai continuar a aumentar? Ou vamos voltar a comprar productos de qualidade e cuidar daquilo que já temos? Será que o futuro vai estar na roupa inteligente e nas novas tecnologias ou vamos regressar aos métodos orgânicos e tradicionais?
Este documentário de 45 minutos alerta-nos para estes temas através dos olhos de designers, cientistas e ambientalistas que querem tornar a indústria da moda mais interessante, sustentável e inteligente.


SÉRIE

A série Sweatshop produzida pelo realizador norueguês Joakim Kleven segue três bloggers norueguesas numa viagem ao Camboja. Os primeiros episódios mostram as bloguers Ludvig, Frida e Anniken a divertirem-se, ignorando que a maior parte da roupa que compram é produzidas naquela cidade por mão de obra escrava em condições desumanas. Mas bastou uma visita às fábricas para as suas opiniões sobre a indústria da moda mudarem. 
A série conseguiu abrir o debate político sobre as más condições de trabalho das cadeias de produção das marcas de fast fashion e alertar para o consumo mais consciente.


VÍDEO

"Eu nasci em 1926 e tenho usado este tipo de vestido desde sempre. Cada símbolo, costura, pedaço de tecido e cada cor diz algo sobre mim (...) Podes ler milhares de histórias nele." No vídeo Desula realizado pelo Andrea Pecora, cerca de dez mulheres desta vila montanhosa em Sardinian continuam a usar o mesmo vestido tradicional que as acompanhou em todas as fases da vida delas, do dia do casamento ao trabalho, da adolescência à maturidade. Um vídeo encantador sobre como a roupa tradicional pode ser mais bonita e significativa do que qualquer moda que possa surgir.


PODCAST

Já alguma vez te perguntaste quem fez a tua camisola preferida? O podcast Why do you have things? entrevista escritores, designers e artesãos independentes sobre as suas ideias e inspirações ao longo do processo de produção de uma peça. 
Aconselho o episódio com a Zini Edmundson, a editora da revista Knit Wit Magazine, e o episódio com o escritor Marc Bain, sobre consumismo, qualidade e minimalismo na moda.


LIVRO

Lucy Siegle é uma das mais conceituadas jornalistas britânicas na área do jornalismo social, da justiça ambiental e do consumo ético. No seu livro To die for - Is fashion wearing out the world? ela investiga e analisa o que realmente se passa atrás das grandes marcas do mundo da moda. A sua curiosidade fê-la viajar por países em desenvolvimento e visitar inúmeras fábricas têxteis para perceber o impacto que o consumo desenfreado da sociedade ocidental tem a nível social e ambiental.


REVISTA

A edição da revista Vestoj sobre slowness fez parte dos meus favoritos do mês de Março mas seria imperdoável não a referir novamente aqui. Com um tom convidativo e inteligente apresenta-nos entrevistas, artigos e excertos literários sobre a importância de abrandarmos e apreciarmos a história, originalidade e beleza de uma peça de roupa.


ARTIGO

A h&m tem sido das marcas de fast fashion que mais frequentemente vemos associada à sustentabilidade e ao comércio justo mas isso pode não ser suficiente. No artigo escrito pelo Marc Bain sobre a campanha World Recycle Week, ele defende que esta iniciativa é um trunfo publicitário sem consequências positivas no impacto ambiental e social da marca.


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A pressa


A virtude de ser paciente foi roubada
 e agora pertence à pressa
 Ela corre para enganar o tempo
e
ri-se
do seu feito. 

Os seus sapatos estão sempre à porta,
prontos para serem calçados em precisamente

1
2
3
4
 segundos
Quem tem tempo para mais?

Atravessa a rua
sem nunca parar
sem nunca a apreciar

 Neste jogo
o seu único adversário
são os minutos,
mas não faz mal.

Ela não tem medo de nada ´
desde que não a obriguem a abrandar. 
E contra isso ela reza todas as manhãs 
quando os seus cabelos dançam em favor do vento, 
e os seus pés cortam caminho
numa multidão tão frenética como ela.
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Diário de Fevereiro e Março

Podia começar este texto a falar sobre as particularidades do mês de Fevereiro, um mês com poucos dias que nos faz lembrar que o tempo passa depressa, mas, para o melhor ou para o pior, estes 29 dias estiveram repletos de decisões, mudanças e planos. Tarefas e prazeres que me distanciaram tanto da realidade que, quando me apercebi, Fevereiro já era Março.


V I A G E M

Em Fevereiro planeou-se, em Março concretizou-se. No início deste mês entrei num avião rumo a Milão, o início de uma viagem por cinco países em oito dias. A maior parte dos dias foram passados a andar de comboio pela Áustria, onde me apaixonei pelas montanhas nevadas, pelo azul névoa do céu e pela calma das cidades. O frio foi sempre uma constante mas também o foi a aventura. Houve gargalhadas contagiantes, comidas deliciosas e sítios de cortar a respiração. Foram apenas oito dias mas pareceram oito meses. No momento de voltar a nostalgia não me largou. Eu estava cheia de histórias para contar mas ainda não estava pronta para regressar.


G I R L S

Raramente gosto logo de uma série ou de um filme. Primeiro estranho as personagens, a linguagem, os cenários, só depois é que começo a familiarizar-me com os episódios. A série Girls não foi excepção. Apesar de hoje ser uma das minhas preferidas, nem sempre foi assim. Depois de ver e rever a série mais de que uma vez comecei a identificar-me cada vez mais com as situações retratadas. com o desejo das personagens de seguirem os seus sonhos e com a dificuldade em ser jovem nos dias de hoje. Fevereiro marcou o início de uma nova temporada de Girls e eu já revi os episódios que saíram duas vezes. Não é por acaso que a repetição é o meu recurso estilístico preferido.


L I V R O S 

Eu sou uma apologista de que a realidade é mais interessante do que a ficção. Talvez porque a veracidade de uma história é o que a torna fascinante. Quando entro numa biblioteca ou livraria, a secção para onde me dirijo é sempre a das biografias. Há quem ache que ler sobre a vida de outra pessoa não é mais do que espreitar o seu diário ou ler a opinião de alguém sobre ela. Para mim, uma auto-biografia é uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre algum que me fascina. Os últimos dois livros que li encaixam na perfeição nesta categoria. Comecei com o livro What I Talk About When I Talk About Running . Um livro de memórias escrito pelo Haruki Murakami sobre o seu hábito de correr e escrever. Cada página do livro despertou-me desejos de movimento. A persistência do escritor e a sua força de vontade em concretizar os seus objectivos são um exemplo de persistência que parece rara nos dias de hoje. O mesmo se passou com o livro M Train da Patti Smith, a minha leitura de Março. Talvez tenha sido por ler este livro enquanto viajava de mochila às costas pela Europa e fazia pequenas sestas no comboio, mas as memórias da escritora fizeram-me lembrar um sonho, como se estivesse dentro da mente dela e os pensamentos vagueassem entre o presente, o passado e o futuro. Uma história sem tempo, nem lugar, que me deixou com vontade de passar os dias em cafés a escrever poesia em guardanapos.


R E V I S T A S

Estávamos em meados de Fevereiro quando recebi em minha casa a Vestoj, uma revista sobre moda escrita por professores universitários e investigadores da área sobre as relações das pessoas com a moda e a relação da moda com a nossa identidade.  Cor de céu azul e com um formato idêntico ao de um livro, eu finalmente estava a segurar a revista porque ansiei durante tanto tempo. Na capa havia uma pequena nota escrita à mão, presa por um pequeno clipe preto, onde se lia "Dear Inês, We sincerely hope you enjoy the reading! Love, Vestoj". A revista tinha chegado a mim há menos de dez minutos e já me estava a surpreender. Neste momento vou a meio da leitura e estou sem pressa de a terminar. O tema da edição que comprei é slowness e quero fazer juz aos seus artigos. Além disso, esta é possivelmente a revista mais inteligente e interessante que já li sobre moda. Lá, a publicidade é proibida e os leitores são convidados a serem curiosos e a verem a moda para além das lentes do consumo. 


B I S C O I T O S

Sábado passei a tarde ao sol com uma tshirt vestida enquanto ajudava a minha família a fazer biscoitos para a Páscoa. A tarde foi atarefada mas passou-se de forma calma por entre flores, lenha para o forno e conversas pausadas. O calor do sol e do forno criou o ambiente perfeito para criar os biscoitos dourados que me lembro de comer desde sempre. As minhas calças pretas ficaram repletas de farinha, os dedos de massa e a mesa de açúcar mas no final do dia essas foram as melhores lembranças. O mês acabou tão bem como começou.


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Ética

Compra menos
mas melhor

Não vejas preços
vê qualidade

Segue os teus valores
e sê selectivo


Consumismo ético, comércio justo, responsabilidade social e sustentabilidade. Palavras longas com significados complexos. 
Até há pouco tempo estas palavras funcionavam como sinónimos para mim e as suas definições não passavam de conceitos abstractos na minha cabeça. Tudo o que sabia era que simbolizavam o bem, quer fosse do ambiente, das pessoas ou dos productos. Enquanto essas palavras estivessem associadas às minhas compras ninguém me podia censurar, afinal, eu estava a salvar o mundo!
À medida que o meu interesse pela temática do consumismo ia aumentando, apercebi-me que estes termos mereciam mais da minha atenção e comecei a estudá-los. Percebi que apesar dos termos serem similares, eles referem-se a diferentes áreas de actuação e só depois de os conhecer verdadeiramente é que podia melhorar os meus hábitos de consumo.

Falar em ética e aplicá-la ao consumismo é dar prioridade aos valores que defendemos. Se somos contra a escravatura, a mão de obra infantil e os testes em animais isso implica deixar de comprar productos que apoiam esses acções e escolher marcas que suportam os seus trabalhadores e defendem os direitos dos animais. Comprar productos sustentáveis ou com o selo do comércio justo é uma forma de consumir éticamente com a segurança de que estamos a apoiar causas sociais e ambientais. Não é por acaso que esta certificação é considerada a grande vitória do consumismo ético, estimulando a produção de bens de qualidade e apoiando agricultores em países em desenvolvimento. O suporte dado aos productores é uma das principais razões porque o consumo justo pode ajudar a melhorar o estilo de vida de muitas pessoas. A riqueza mundial tem estado concentrada numa pequena parte da população e os agricultores responsáveis pela produção do algodão, açúcar ou cacau são muitas vezes prejudicados. As grandes corporações ficam com o lucro das vendas enquanto que a mão de obra vive em situações de extrema pobreza. O comércio justo garante que é oferecido um valor mínimo aos productores por aquilo que produziram mesmo quando os preços do mercado descem e os productos não são vendidos. Com este sistema, os agricultores são sempre pagos por aquilo que produzem, fazendo com que o dinheiro comece finalmente a circular fora do ciclo vicioso das grandes corporações capitalistas.

Para sabermos se uma corporação é digna do nosso apoio devemos analisar a responsabilidade social da empresa, isto é, se se preocupa com o bem-estar dos seus trabalhadores, com a sua influência na comunidade e com a preservação do meio ambiente. Isto é alcançado através da implementação de políticas de sustentabilidade que visam uma maior transparência sobre o modo de funcionamento da empresa.

Ao contrário do consumo ético positivo, o consumo negativo apela ao boicote de companhias e empresas com valores duvidosos. Organizações como a Campaign for Safe Cosmetics (CSC) têm alertado sobre diversas situações de risco e já conseguiram mudar a conduta de várias empresas. Uma das suas últimas campanhas foi contra a marca Johnson & Johnson devido à utilização de químicos nos champôs para crianças. A marca Nestlé também foi obrigada a mudar a sua forma de actuação depois da Greenpeace descobrir que os responsáveis pelo óleo de palma usado nos seus produtos estavam a contribuir para a deflorestação da Indonésia, a destruição dos ecosistemas e a extinção dos orangotangos. 
Anna Lappe, defensora da sustentabilidade alimentar, diz que cada vez que gastamos dinheiro estamos a submeter um voto no tipo de sociedade em que queremos viver. É por essa razão que é importante sermos consumidores conscientes. Fazer compras não é um passatempo capitalista, é uma escolha com consequências reais que tão depressa podem salvar o mundo como o condenar.

Desde que optei pelo estilo de vida minimalista tenho feito cada vez menos compras. Como passo mais a fazer o que realmente gosto, as compras ficam sempre para segundo plano e sinto-me cada vez mais feliz com aquilo que já tenho. Ainda assim o tempo quente está a chegar e sei que vou precisar de substituir algumas peças de roupa e umas sandálias que se estragaram o ano passado. Podia ir apenas à Primark ou a outra loja de fast fashion e comprar tudo o que precisava mas isso estaria contra os valores que defendo. Apoiar o comércio justo e o consumo ético não é  apenas uma decisão filantrópica é também uma forma de valorização pessoal. Escolher um producto de qualidade que adoramos e que vai durar vários anos é a melhor coisa que podemos fazer pelo nosso eu minimalista. Esse tipo de produtos e roupas podem ser difíceis de encontrar mas graças à internet é possível descobrir algumas marcas éticas, sustentáveis e amigas do ambiente com peças de qualidade que estão cheias de histórias para contar



A marca Everlane distingue-se pela sua transparência corporativa e pelo design simples, minimalista e intemporal dos seus productos. No site da marca é possível ver onde foi feito cada produto e o custo de cada material, desde o fecho até ao algodão. Uma das minhas coisas favoritas da Everlane é a sua pequena mas essencial selecção de produtos. Nada neste site parece depender de modas passageiras. 
Infelizmente a marca só está disponível nos EUA e no Canadá.




É quase impossível ficar indiferente à história desta marca depois de ler a sua missão. 100% dos productos da People Tree são provenientes do comércio justo, ou seja, quer estejas a comprar uma camisola, umas calças ou umas meias estás a ajudar o ambiente, famílias e comunidades que ajudaram a criar esse roupa. O site tem também uma secção chamado Meet the Maker onde podes ver vídeos sobre os vários artesãos responsáveis pela criação dos produtos da People Tree. 





A Glimpse auto-intitula-se como uma marca de moda humanitária contra o tráfico humano e o título não lhes podia ficar melhor. Apesar de serem uma marca pequena eles acreditam que podem mudar o mundo pouco a pouco e dar esperança àqueles que já quase perderam a fé na humanidade. A sua principal luta é contra o comércio sexual de mulheres na Índia, de que são vítimas cada vez mais mulheres todos os anos. O pior é que mesmo depois de terem sido "libertadas" estas mulheres são marginalizadas pelo seu passado e não lhes são dadas novas oportunidades. Para contrariar esta triste realidade a marca Glimpse dá educação e formação profissional a estas mulheres para poderem trabalhar na Glimpse onde lhes é garantido um ordenado, boas condições de trabalho e uma oportunidade para deixarem o passado para trás.



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Tempestade

A
chuva
lá fora
não 
me cai
bem


Acordo e adormeço incontáveis vezes naqueles minutos que antecedem a hora de levantar. Ouço a chuva a bater na janela e, num acto de infantil cobardia, escondo-me um pouco mais debaixo dos lençóis. Quando o relógio assinala o momento decisivo para retirar o meu corpo da cama, eu esfrego os olhos, ainda ensonados, e encaminho-me vagarosamente para a janela. Está um dia perfeito para ficar em casa. Chove sem parar, o vento penteia as árvores e a claridade não promete aparecer. O céu está de um cinzento suave que nos diz que já não é noite mas que o dia irá ser escuro. 
Com um chávena de chá e uma manta a cobrir os ombros, aproveito os últimos minutos antes de enfrentar a tempestade. De um lado estou eu, o vapor do chá de maça e canela, o conforto do lar. Suspiro enquanto desenho símbolos que nada significam no vidro ligeiramente embaciado. Oh, o frio da rua passou para as pontas dos meus dedos. Agora vai ser impossível arranjar coragem para sair.

Isto está sempre a acontecer. Da segurança das quatro paredes que me rodeiam eu glorifico as tempestades como se fossem uma deusa. Aprecio a elegância dos relâmpagos no céu e o suave som da chuva no chão, mas, no momento de sair, o conforto fala mais alto, tão alto que a coragem não é mais do que um sussurro. Uma simples sugestão de algo que não queremos concretizar.

Ainda num estado de preguiça disfarçada, penso em tudo o que o conforto me impediu de fazer. 

As coisas que
não
arrumei
Os sítios onde
não
fui


Aquilo que não mudei. Ainda assim, aqui estou eu, absolutamente encantada com o tempo lá fora mas com demasiado receio do que pode correr mal quando o enfrentar. O cabelo molhado, o guarda-chuva desfeito, o cachecol a voar do meu pescoço. Nada bom pode acontecer lá fora, felizmente ainda tenho mais uns minutos antes de sair. Arrumo as coisas que estavam abandonadas em cima da minha mesa, lavo a chávena já sem chá, pego no mapa da minha próxima cidade e mudo a forma como tinha o meu cabelo. 

Despeço-me
do
conforto

A verdadeira
tempestade

Para a minha
coragem

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Imperfeição

Querida, indesejada, imperfeição,

O mundo não tem sido um lugar fácil para ti. Cada vez que apareces, seja na forma de um cabelo fora do sítio ou de um erro numa frase, nós, humanos, fazemos o possível e o impossível para te corrigir, mudar e aperfeiçoar. Não há lugar para erros nos tempos de hoje. Já não há tempo para coser os buracos das meias, colar uma chávena partida ou para apreciar os pequenos defeitos de alguém. O mundo pede mudança e quando o novo e o velho combatem, a vitória está sempre do lado da novidade. Assim, substituem-se as loiças, as roupas e as pessoas e começa-se uma nova relação temporária cuja data de validade expira à primeira falha.
Queria culpar-te a ti, imperfeição, mas bem sei que o erro é humano e que a paciência já nem consta na lista de virtudes. A perfeição está à espreita em cada canto e é difícil resistir ao seu encanto. Ela aparece sob a forma de modelos de corpo curvilíneo, fotografias de pequenos-almoços e diálogos sem falhas num filme de hollywood. A perfeição é o combustível ideal para o hábito do consumo. A sua energia tem tanto de inesgotável como de incansável. No entanto, aqui estou eu, a escrever uma carta de amor, sob a forma de pedido de desculpas, à imperfeição.
A expressão japonesa Wabi-sabi significa encontrar a beleza na imperfeição e é isso que eu tenho tentado fazer. Cada erro ou falha presente nas coisas que nos rodeiam ou nas pessoas de quem gostamos não é um pedido de substituição, é um reflexo de autenticidade.  
Está na altura de começarmos a aceitar os erros e as falhas e de os abraçarmos como parte de quem somos e de onde desejamos estar amanhã. O mundo pode estar a ser injusto contigo, imperfeição, mas és mais necessária do que nunca.
As tuas meias podem estar cheias de buracos, mas o reino da perfeição está vazio.
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Sextas negras

Sexta-feira, enquanto as lojas se enchiam de saldos e as pessoas de pressa, eu celebrei o Buy Nothing Day. No meu mundo não existiu Black Friday, nem vai existir Cyber Monday. Não andei a explorar as promoções do ebay, nem da Amazon. Não andei a ver montras, nem a percorrer lojas. Em vez disso eu escrevi, li, conversei e fotografei. Foi um óptimo dia, tudo porque eu decidi passa-lo como pessoa e não como consumidor.
Já todos ouvimos dizer que o dinheiro não compra felicidade, mas ninguém parece realmente acreditar nisso. Sobretudo em dias de saldos, promoções ou descontos, quando ficamos vidrados no acto de comprar. Podemos até acreditar que estamos a poupar dinheiro, que não fará mal gastar apenas dez euros mas, no final, comprar apenas por promoção é oferecer a nossa liberdade e a dos outros. Porque se pensarmos nas horas que tivemos de trabalhar para ganhar esse dinheiro ou nas pessoas que fizeram a camisola a troco de quase nada, talvez não pareça assim tão barata.
Cada vez que escolhemos celebrar dias dedicados ao consumo estamos a perder o nosso poder como pessoas. Já não somos nós que compramos os produtos, são eles que nos consumem a nós. Como é possível haver filas e filas de pessoas que esperam à chuva para gastar o seu dinheiro numa loja? Há pessoas que dormem nas ruas e que se sujeitam ao frio porque não têm outra opção mas nós, consumidores, estamos a sujeitarmos a essas condições por um produto que às vezes nem queremos. Já não são as roupas, os eletrodomésticos e as tecnologias que estão baratas. Já somos apenas nós.
Da primeira vez que ouvi falar no Buy Nothing Day fiquei surpreendida. É mesmo preciso haver um dia específico para nos lembrarmos de não comprar nada? Estamos assim tão viciados no acto de comprar que passar um dia sem consumir é motivo de festejo?
Eu sou capaz de passar dias sem comprar nada e sem precisar de me esforçar para o fazer. Quando a nossa mente tem coisas mais importantes para se ocupar, o consumismo é apenas um ruído que ouvimos cada vez menos. Mas, infelizmente, a maioria das pessoas não pensa assim. O consumo é hoje muito superior ao que era há 20 anos atrás e o pior é que este exagero no consumo está a alastrar-se a outras áreas das nossas vivências. 
O autor Byung-Chul Han no seu artigo Porque é que hoje nenhuma revolução é possível? fala precisamente sobre esta questão. Valores como a partilha, a solidariedade e a hospitalidade já se transformaram em bens de consumo. Serviços como o “Airbnb” alugam quartos como se fossem hóteis, transformando a hospitalidade numa mercadoria. Numa sociedade centrada na capitalização dos bens, o minimalismo pode ser uma lufada de ar fresco. 
A Black Friday já terminou mas as compras de Natal ainda estão só agora a começar. Quase toda a gente vai andar a saltar de loja em loja, já eu vou estar bem longe dos shoppings. Quando sair do trabalho vou caminhar até casa com calma, observar como as folhas das árvores estão bonitas nesta altura, ver as luzes de Natal e sentir o frio de Dezembro. Em casa vou encontrar flores secas, cadernos em construção, pedras apanhadas na praia, pedaços de histórias e aguarelas. Tudo aquilo que preciso para criar presentes de natal que não têm preço. Enquanto estiver a fazê-los vou ouvir a minha música preferida, preparar um chá quente e conversar até o dia terminar. Esta é mesmo a minha época favorita do ano, só é pena sentir que quase ninguém a está a aproveitar.
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Esperança

Ontem foi um longo dia. Acordei, vesti-me e fui para o trabalho. A partir do momento em que liguei o computador comecei a ser invadida por um sem fim de notícias relacionados com os atentados terroristas em Paris.
A América diz à França que deviam entrar em guerra contra o autodenominado estado Islâmico. A Bélgica transforma-se pouco a pouco numa cidade fantasma e o medo começa a fazer parte do dia-a-dia dos europeus.
Ás 11 da manhã já tinha lido inúmeros relatos dos sobreviventes do atentado ao Paris.
Ao meio dia já sabia que um avião russo tinha sido abatido na Turquia.
Apesar de tudo eu não podia deixar estes acontecimentos assustarem-me. Em algumas horas eu iria estar no concerto da minha banda preferida. Não podia deixar o medo impedir-me de fazer as coisas de que mais gosto.
Entretanto distraí-me com o trabalho e com o frio lá fora. O medo estava a passar. Afinal, Portugal é um país pequeno, a banda não é assim tão conhecida e quase de certeza que vai haver polícias à porta. Infelizmente o meu recente estado de calma perdeu-se no momento em que entrei no Facebook.
12 mortos num ataque terrorista a um autocarro na Tunísia.
É difícil manter a calma quando o mundo parece pior a cada hora que passa.
Quando fui para casa  faltava apenas uma hora para o concerto e eu estava mais nervosa do que nunca. Os meus olhos estavam vigilantes e eu estava desconfiada. Olhava para tudo o que me rodeava com um pouco de medo. Mas mesmo assim não podia deixar as notícias sensacionalistas afectarem-se. Se não tivesse coragem de ir ao concerto da minha banda favorita a 10 minutos de minha casa nunca iria ter coragem de voltar a viajar, de ir a um festival ou de estar no meio de uma multidão outra vez. Eu tinha de ir aquele concerto.
Ainda com um pouco de preocupação na minha mente decidi dar um passo de cada vez. Só preciso de sair de casa, entrar no elevador, descer e ir para a rua. Ok, agora só preciso de ir até ao metro. Passar na mercearia que está sempre aberta até tarde, passar na paragem de autocarro onde às vezes estou à espera e entrar na estação de metro.
Quatro paragens depois estava à porta do teatro onde ia acontecer o concerto.
“Vai correr tudo bem”- disse eu para mim mesma.
Quando cheguei ao teatro havia um polícia lá fora e vários lá dentro. Eles viram o interior da minha mala e revistaram-me. Isso deixou-me mais descansada. A sala estava cheia. O ambiente estava óptimo. Senti que podia descansar.
Antes do concerto começar as pessoas estavam a falar, a rir, a beber cerveja. Entretanto o palco era preparado. De repente ouviu-se um barulho seco e oco que ecoou por toda a sala. A multidão ficou em silêncio total e todos os olhares se focaram no palco. Um dos técnicos tinha deixado cair algo. O silêncio deu depressa lugar a pequenas gargalhadas. Toda a gente estava assustada mas todos estavam ali, a mostrar a eles próprios como era ridículo vivermos constantemente num estado de medo.
Quando as luzes se apagaram e os Beach House entraram no palco fiquei feliz por estar ali. As suas músicas doces, místicas e calmas mostraram que nem tudo está perdido. A cada música que tocavam e cantavam nós éramos transportados para um lugar melhor onde não faltam noites estreladas.
Quando os Beach House acabaram o concerto com a música Strange Paradise senti que tinham escolhido a música ideal para finalizar a noite. Uma metáfora perfeita do mundo em que vivemos. Um estranho paraíso onde podemos estar rodeados de caos mas onde ainda conseguimos criar boas memórias e termos momentos de calma e felicidade. Vai sempre haver algo mau a acontecer no mundo mas também vai haver bons momentos que vamos querer recordar. E se vivermos constantemente com medo vamos estar a oferecer a nossa liberdade mesmo antes de ela ser roubada.
Quando saí do concerto fui para casa em paz. Nessa noite não voltei a tocar no computador. Preparei um chá, conversei e continuei alienada pela música dos Beach House até adormecer.
Hoje quando acordei as músicas continuavam a ecoar na minha cabeça e o mundo já não parecia um lugar tão assustador.
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Última hora


50 minutos. Duas vezes por dia. Todos os dias da semana.

Portugal é conhecido por ter um dos noticiários televisivos mais longos da Europa. Um feito que até podia ser considerado impressionante, se a quantidade informativa fosse proporcional à qualidade noticiosa. Infelizmente a maior parte das notícias que vemos na televisão apresentam um grau de informação tão baixo que dificilmente nos sentimos mais bem informados no final de cada telejornal.

50 minutos.

Pode parecer muito tempo, mas não é. Há sempre algo novo a acontecer. Sabemos da última discussão no parlamento, da trágica história do homem que matou a mulher, dos últimos resultados do futebol e, com sorte, ainda sabemos algumas curiosidades dos actores que entram na nova novela do canal. Em 50 minutos o telejornal é a companhia perfeita para todas as refeições, sobretudo quando nos dá todos os temas de que precisamos para conversar com os amigos no trabalho.

Duas vezes por dia.

A repetição é uma figura de estilo louvável. Cada vez que aprendemos algo novo a repetição é a ferramenta ideal para aperfeiçoarmos a nossa técnica e para nos tornarmos cada vez melhores. Este tipo de repetição transforma-nos em seres humanos melhores e ajuda-nos a ter uma vida mais significativa. Caminhar todos os dias para sermos mais saudáveis. Desenhar diariamente para nos mantermos criativos. Falar todos os dias com as pessoas de que gostamos para lhes mostrar como são importantes. Isto é o que acontece quando a repetição é usada para nos fazer crescer e evoluir. Quando vemos as mesmas notícias duas vezes por dia não estamos a aprender nada de novo. Somos apenas consumidores de informação em massa.

Todos os dias.

As notícias mais importantes são aquelas que não vemos na televisão. Por todo o mundo há coisas a acontecer que podem mudar o nosso futuro. Estes acontecimentos ocorrem todos os dias mas, infelizmente, os telejornais já tem informação suficiente para passar e as notícias acabam por ficar para outro dia, um dia que nunca chega. Um dos maiores desastres ambientes do século XXI está a acontecer agora na Indonésia mas as televisões não puderam noticiar isso porque a roupa que a rainha de Inglaterra usou na estreia do novo filme do 007 era mais importante. Aquilo que a maior parte dos noticiários considera informativo, muitas vezes não é informação. Assistir a uma discussão no parlamento através da televisão pode dar a falsa ilusão de que estamos a ficar mais informados sobre a situação política do país mas, na realidade, estamos só a ver imagens superficiais sem percebermos o que está realmente em causa. O jornalista português Ricardo J. Rodrigues comentava há umas semanas atrás no Facebook como o jornalismo devia ser uma ferramenta que ajudasse a tornar legível o que é relevante e que ajudasse a criar uma opinião pública mais esclarecida e uma cidadania mais exigente. Ele falava especificamente sobre como as verdadeiras mudanças são feitas por detrás das notícias mediáticas que consumimos. A informação que recebemos diariamente na televisão não é suficiente para nos deixar informados. É preciso apelarmos à nossa curiosidade e ao nosso desejo de lutar pelo mundo e pelo nosso futuro para descobrirmos o que é verdadeiramente importante.

50 minutos.  Duas vezes por dia. Todos os dias.

Este não é o tempo que precisamos para ficar mais bem informados. O conhecimento não é apenas consumível. Para sabermos mais precisamos de nos concentrar mais na qualidade da informação que e menos na quantidade e no tempo. Para isso precisamos de lidar com a informação de forma mais selectiva, minimalista e diversificada porque a repetição não é uma vantagem quando procuramos conhecer o mundo através de perspectivas diferentes.
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Campo


A natureza nunca esteve tão desvalorizada como durante as últimas décadas. A migração das pessoas do campo para a cidade e a facilidade com que passámos a adquirir frutas e vegetais de embalagens no supermercado mostra como a natureza tem ficado sempre em segundo plano no mundo moderno.
Não há como negar o apelo que a cidade, as tecnologias e modernidade têm em nós. Hoje podemos ir ao supermercado mais próximo e comprar carne, peixe, biscoitos caseiros e frutas sem termos de pensar como foram produzidas nem como é que foram ali parar. Isto tornou-se algo tão comum que até há quem já se tenha esquecido que o leite vem de uma vaca e não de um supermercado. Mas, quando deixamos a cidade e vamos até ao campo, nem que seja apenas por um dia, a nossa percepção das coisas começa a mudar. De repente começamos a reparar que as amoras sabem melhor quando são apanhadas por nós e que as uvas são mais bonitas quando não estão escondidas em sacos de plástico.Quando optamos por um estilo de vida mais calmo, podemos aproveitar estes pequenos prazeres e tornar a nossa semana mais significativa.
Num dos últimos fins-de-semana fui até há minha cidade natal e daí parti com a minha família para a casa de campo do meu avô, um dos meus sítios preferidos no mundo. Desde pequena que vou lá aproveitar o sol, nadar no rio e passar o dia em família mas, infelizmente, desde que estou a viver no Porto não tenho conseguido ir lá tantas vezes. Ainda assim, não poderia ter ficado mais feliz quando entrei no carro e comecei a ver a cidade a desaparecer atrás de mim.
Enquanto lá estive aproveitei ao máximo a natureza. Apanhei amoras, nadei no rio, coleccionei pedras, guardei um pouco de erva-cidreira para fazer chá, fiz a sesta deitada na relva e apanhei a maior quantidade de fruta que consegui. Posso dizer que foi certamente um dos melhores fins-de-semana que passei este verão. E o melhor é que acabou por tornar-se mais do que um simples fim-de-semana. Ao trazer todas estas pequenas coisas comigo, como as amoras, os pêssegos e a erva-cidreira, a minha semana no Porto esteve repleta de bons momentos. Algo que não teria sido tão bom se me tivesse limitado a ir ao supermercado comprá-las.
Como é difícil exprimir por palavras o estado de calma que me acompanhou ao longo desse meu fim-de-semana decidi criar um pequeno vídeo a mostrar um pouco mais sobre esses meus dias no campo.
Entretanto vou fazer os possíveis para voltar lá sempre que posso, porque não há nada melhor do que aproveitar momentos de calma num sítio onde a única fonte de energia é o sol.
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Vogue


Diz-se por aí que a moda é cíclica, e isso é fácil de perceber. Na maior parte das lojas há outra vez à venda calças à boca-de-sino e até há quem defenda que a camurça é o tecido deste inverno. Ainda assim, há um retorno pelo qual eu tenho esperado mas que está a demorar a voltar. Refiro-me às antigas capas da Vogue, onde a arte era a maior das celebridades.
Há uns anos atrás ofereci há minha irmã uma coleção de 100 postais da Vogue, sendo que o primeiro postal corresponde à capa da primeira edição desta revista, que saiu no dia 17 de Dezembro de 1892, e o último apresenta a capa da Vogue de Novembro de 2011, onde vemos muitas cores, muitas mensagens e a atriz Rooney Mara. Entre estas duas edições da Vogue passaram-se 120 anos. Um imenso período de tempo, se pensarmos que entre cada uma destas edições aconteceram duas guerras mundiais, o fim do colonialismo, o despertar da tecnologia, inúmeras crises económicas e um sem fim de mudanças sociais e culturais. Nunca um século foi palco de tantos acontecimentos e evoluções.
No entanto, eu não paro de imaginar como seria se uma leitora da primeira edição da Vogue recebesse a edição de Novembro de 2011. Ela certamente ia achar estranha a capa da Vogue com todas aquelas mensagens, cores e chamadas de atenção. A seguir acho que ficaria a pensar quem seria a pessoa da capa e o porquê de estar numa postura que é tão deselegante para o corpo feminino. Talvez ela também ficasse surpreendida com o tamanho da revista. Tantas páginas, tantos anúncios, tanto conteúdo, tantas lojas, tantos preços. Além disso, já nem há páginas dedicadas à costura no final da revista!
A minha imaginação poderia continuar mas acho que já é suficiente para percebermos que a moda mudou tanto como o resto do mundo em 120 anos. A moda é cada vez mais variada, e o estranho e o invulgar também já têm entrada no mundo da beleza. Mas, com todas as evoluções que conseguimos alcançar perdemos a capacidade de ver a moda como uma arte.
Há uns dias atrás, a Delayed Gratification Magazine fez um estudo baseado na Vogue de Setembro deste ano. Eles analisaram quanto é que teríamos de gastar se seguíssemos cegamente as sugestões da revista e comprássemos tudo o que nos sugerem. O resultado foi o valor astronómico de 638,713 libras, o correspondente a cerca de 875 mil euros. A pior parte foi que não fiquei surpreendida. Já há anos que não compro uma revista da Vogue porque tudo o que eu vejo é um catálogo de compras com fotografias melhores. Não encontro inspiração, beleza nem arte. Apenas preços, objectos e lojas.
Não estou com isto a defender que devíamos retroceder 120 anos, mas acredito que o facto de vivermos num mundo governado pela abundância de informação e pelo consumismo desenfreado está a prejudicar a criatividade e a arte que eu tempos foi associada à revista. As celebridades são certamente ícones importantes da cultura actual e hoje em dia, mais do que nunca, há uma enorme pressão para se venderem revistas mas isso não implica que a capa seja um antro de informação e que seja preciso uma actriz na capa para fazer a revista vender.
A Vogue é a maior revista de moda do mundo. Sobreviveu a duas guerras mundiais, ao fim do colonialismo, ao despertar da tecnologia, a inúmeras crises económicas e a um sem fim de mudanças sociais e culturais. Está na altura de se transformar novamente numa bíblia da moda onde a inspiração, o entusiasmo, a criatividade e a arte são mais importantes do que 875 mil euros em produtos. Entretanto resta-me ficar a admirar as antigas capas da Vogue e as suas ilustrações maravilhosas.
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